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segunda-feira, 13 de setembro de 2010

COLABORADORES: Fabricio Almeida

Apresento nova colaboração ao Blog:
Fabrício de Almeida é ator, dramaturgo e poeta. Escreveu o poema a seguir depois de se deparar com a situação do Tiete, quando mudou-se pra São Paulo... à vontade para observar onde a ação política, a crítica e sensibilidade se encontram...



O Rio que somos Nós

- O retrato não era de Narciso
Por sob o espelho cinza
película
Lágrimas de tristeza
leve correnteza
Lágrimas de pura tristeza
(É meu amigo não somos Narciso)
a tua dor refletida em nossos olhos,
confirma.
Grite sim por Narciso,porque o que vês não és tu...
O Rio que somos Nós.
(E assim passei por cima de Ti-ê-te)

(Fabrício de Almeida. São Paulo, 2009)
.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

COLABORADORES: Um pouco de realidade faz bem...

por Marco Bettine*
Estes dias uma colega de trabalho me pediu para ler um artigo que ela havia enviado para as Organizações das Nações Unidas, refleti um pouco antes de aceitar, pois ando preocupado com as iniciativas do Conselho de Segurança. No entanto, sei que a ONU é mais que aquele Conselho; apesar de ali ser o seu coração. Enfim, li o artigo que versava sobre a experiência de ser deficiente, portanto não tem nada a ver com segurança ou estruturas internacionais e falo um pouco do muito que aprendi....
Resumidamente, o artigo havia entrevistado pessoas que, por algum motivo, tornaram-se deficientes na fase adulta. Os testemunhos são fortes; deixariam perplexos todos os urbanistas ou mesmo as casas e prédios ditos de alto padrão. As falas colocam em xeque todos os nossos sentimentos mesquinhos e outras tantas discussões menores que vivenciamos. Como a do próprio Conselho de Segurança.
Aqueles que tiveram alguns segundos para ler estas palavras pensem um pouco: como deve ser a experiência do primeiro banho após meses no hospital e simplesmente não conseguir entrar no banheiro da própria casa.
Todos os entrevistados possuem histórias sofridas sobre este momento de transição, que reflete a adaptação a uma nova condição de corporeidade. A estrutura familiar mostrou-se fundamental, bem como o olhar do outro, este muito difícil de desconstruir, apensar das campanhas de inclusão. Porém, nossa estrutura social é baseada na eficiência e não no seu oposto, portanto, campanhas são letras mortas e os deficientes possuem algumas garantias porque há uma legislação protetiva.
Dentre todas as questões colocadas cabe aqui um olhar de esperança, e esta esperança não vêm de nenhum programa de governo ou promessas eleitoreiras. Foram as falas destas pessoas que se expuseram para dizer o sentimento de tornar-se deficiente. Eles foram unânimes em afirmar que a promoção do movimento por meio de jogos ou modalidades esportivas é essencial à inclusão. Para eles o esporte promove maior autonomia.
Um ambiente onde a pessoa não se percebe como única, onde outros estão em situações vezes idênticas, vezes melhores ou piores, cria uma identidade pelo olhar e compreensão do sofrer do outro com o outro, este processo auxilia no entendimento do próprio sofrer. A formação de objetivos comuns, resolver problemas rápidos, ser parte de algo maior são os ensinamentos que ficaram das suas falas.
Cito como exemplo o cair da cadeira de rodas, em casa gera toda uma preocupação, às vezes o deficiente coloca-se na situação de necessitado. Agora em uma partida de cadeirantes cair faz parte do jogo. E é melhor levantar para não tomar um contra-ataque.
Pensei bastante sobre a importância da identidade, dimensionamento exagerado dos desafios diários, falta de alteridade para compreender a dificuldade do outro e também, a importância de termos grupos com pessoas que estão preocupados com o divertir-se. Não com uma relação burocrática do mundo das relações estratégica do trabalho.
Acredito que os entrevistados gostam do movimento não pelo entendimento de funcionalidade, mas porque ao movimentar-se aquela condição de corpo específica é esquecida e seu foco é consigo e seus companheiros; um aprendizado comum, onde o conseguir não é somente a prática, mas sim o de estar lá e não isolado.
Marco Antônio Bettine de Almeida é professor doutor da Universidade de São Paulo (USP), marcobettine@usp.br
+ outros artigos autor neste blog estão em Marco Bettine

terça-feira, 6 de julho de 2010

COLABORADORES: Marco Bettine

Desgraça Coletiva
por Marco Bettine*
Não sei o motivo pelo qual nós maximizarmos nossos problemas? Porque às vezes nos vitimizamos para ter um olhar de compaixão do outro?
Logicamente este pequeno texto não tem a pretensão de trazer esta ou qualquer outra resposta; deixemos isso para os médicos que colocam a culpa no hipocampo, quando falar das memórias recentes, ou do córtex que pode ter a necessidade de uma compaixão filogeneticamente constituída.

A conversa que me proponho aqui é pensar um pouco a respeito da necessidade social do mostrar-se vulnerável ao outro.

Não sou um profundo conhecedor da sociedade estadunidense, mas parece-me que lá um dos objetivos é a concorrência: se colocar mais que o outro. Será que somos ao contrário, isto é, valorizamos os aspectos negativos; então seria como é melhor ser o pior? Para aqueles que responderam sim, esqueceram de pensar que o mostrar-se o melhor (no sentido de bens do termo), também faz parte da nossa sociedade. Como faz parte da sociedade estadunidense colocar-se como vítima em situações desfavoráveis em uma competição da desgraça. Então parece que este estado de ser é um pouco mais complexo do que afirmar que fomos colonizados pelos portugueses, os piores da Europa (colonizaram metade do mundo), índios, os Macunaímas (dominam as ervas medicinais das florestas tropicais há séculos) e negros, os indolentes (únicos que trabalharam na monocultura da cana).

Se não é em virtude da colonização, muito menos algo típico brasileiro, continua a questão dos motivos de haver um superlativo da desgraça.

Começo a pensar nos valores da nossa sociedade, algumas palavras vêem à cabeça, vencer, lutar, posição social, dinheiro, parece-me que na sociedade que vivemos o indivíduo (e não o coletivo) é o responsável pelo sucesso ou insucesso da vida em geral.

Contrário a este pensamento é analisar a evolução econômica e os ganhos de uma sociedade que refletem em todo o coletivo; logicamente com um governo que tente minimizar a estrutura vertical de ganhos. Neste caso, todos ganham; e o contrário também é verdadeiro: se as finanças vão mal, os indivíduos, na sua maioria, acompanharão a tendência nacional. Neste caso, os governos tendem a horizontalizar as perdas. Mas, no plano micro parece-me que nós acreditamos que o sucesso e o fracasso dependem unicamente de nossas vontades. Mas, ao verbalizar, minimizamos os “fracassos” colocando-os no coletivo, mesmo acreditando que isso seja individual, e no sucesso, maximizamos o individual retirando totalmente o coletivo de nossas conquistas, porque realmente acreditamos nisso.

Então fica aqui um ponto de destaque, maximizamos a desgraça para arranjar desculpas ao nosso fracasso frente à sociedade, todos são culpados, o governo, a esposa, os filhos, a estrada, o Dunga, buscamos assim uma compreensão do outro, mas no fundo sabemos nós que o outro e nós não acreditamos nisso.

Isso não teria nenhum problema apenas seria uma forma de viver da sociedade contemporânea. Acredito que os problemas estão no viver um mundo de desculpas, de desvalorização do social e de não entendimento de si. Isto é, das nossas reais possibilidades, virtudes, necessidades e felicidade.

Acho que é isso...

* Marco Antonio Bettine de Almeida é professor doutor da USP. marcobettine@usp.br

terça-feira, 22 de junho de 2010

COLABORADORES: Marco Bettine

As Mulheres da Cidade Grande ou, simplesmente, Provocação.

por Marco Antonio Bettine de Almeida*

Fui comprar fraldas para um amigo, ou melhor, para o filho do meu amigo, foto que me colocou em perspectiva para algumas reflexões. Fiquei pensando sobre a gravidez e quem são as pessoas que ficam grávidas no mundo que me rodeia - classe média alta, teoricamente esclarecida e com alguma inserção social. Confesso que tomei um susto, pois todas as mulheres da minha memória que ficaram grávidas não tinham uma inserção bem definida no mundo do trabalho, isto é, eram pessoas que já beiravam os trinta e não tinham um emprego fixo ou não gostavam do seu trabalho.

Ao refletir sobre estes fatos pensei na música de Belchior, interpretada por Elis Regina, Como nossos Pais, será que ainda vivemos no mundo em que o filho é projetado como futuro inevitável das mães. A grande diferença de gerações anteriores era que nossas avós só tinham esta opção; ou pelo menos a minha avó, filha de trabalhadores rurais de Minas Gerais que tentaram a vida na cidade de São Paulo e criavam os filhos fazendo remendos na roupa dos outros, subiam a Rua Direita com os fardos nos braços, de um lado um filho e na barriga outro. Hoje, as mulheres “esclarecidas” têm muitas opções, principalmente estas mulheres do nível sócio econômico que estou focando.
Ao que tudo indica, o fracasso no mundo do trabalho tende a favorecer a maternidade. Se esta matemática estiver correta (provavelmente não... dirão as feministas), a falta de opção levaria a ter filhos e garantir, aos olhos da sociedade, um olhar de aceitação para a nova função que esta pessoa se colocou no grupo. Agora, ela estará livre dos olhares de reprovação anterior, recebendo as fraldas dos amigos e os parabéns. Não estou julgando a maternidade e os laços afetivos, bem como a grandeza de ser mãe, não é isso, a questão é discutir a maternidade como escolha e não como sua falta.
Penso no filho que nascerá: que responsabilidade ele terá ao ser a alternativa do desconforto da mãe. Desconforto, este, propiciado pelas adversidades do mundo do trabalho e das dificuldades de colocação profissional.
Fico imaginando que isto acontece com um grupo social ao qual pertenço, o grupo dos déspotas esclarecidos (baseado na autonomia do saber, olhar científico e livros de autoajuda). Mesmo com este esclarecimento despótico, ainda utilizam a maternidade como fuga. Fugir do marido, das responsabilidades de viver no coletivo (e não pelo filho), dos olhares dos seus iguais, da faxineira que vem uma vez por semana (este dia é bom ir pro parque) e de si.
Confesso que me assustei com este cenário sombrio, mas será que é mesmo tão sombrio? Estou exagerando? Neste momento não tenho respostas.
Fico pensando nas conquistas das mulheres, penso também em quem contribui efetivamente para as transformações. Se a perspectiva discutida até aqui estiver correta, revolucionárias são as mulheres que estão inseridas no mundo do trabalho e decidem ter filhos, elas trazem consigo a potencialidade de mudanças nas leis de licença maternidade. Elas lutarão por melhores condições nos planos de saúde. Elas buscarão seus direitos, falarão que a vida não é só trabalho, mostrarão que as empresas não podem impedi-las de serem mães. Enfim, elas são as verdadeiras Marias de Milton Nascimento.

* Professor Doutor da Universidade de São Paulo, Escola de Artes, Ciências e Humanidades. Pesquisador do grupo de Psicologia Política, Políticas Públicas e Multiculturalismo marcobettine@usp.br

quarta-feira, 9 de junho de 2010

COLABORADORES: Paula Vermeersch

(Esta semana uma colaboração da Historiadora da Arte, prof. Dra. Paula Vermeersch, numa análise histórico-arquitetônica para o blog).

SAUDOSA MALOCA
por Paula Vermeersch*
Em seu famoso samba “Saudosa Maloca”, de 1955, Adoniran Barbosa retrata, de forma pungente, a situação de três moradores de rua que, tendo se apropriado de um velho casarão, dali são enxotados quando trabalhadores da construção civil tratam da demolição e da construção de um “edifício alto” no local. Estrela do rádio paulista, Adoniran obteve um grande reconhecimento pela canção, interpretada magistralmente pelo grupo Demônios da Garoa, e que virou um dos “hinos” da cidade de São Paulo.
De fato, o que mais os paulistanos vêem, em seu cotidiano, é a demolição de várias “saudosas malocas”, edifícios antigos que, mal preservados, viram lojas, prostíbulos, fliperamas e os populares cortiços, no centro da metrópole. Se, nas décadas de 10 e 20 era de bom tom demolir construções coloniais para erigir novos símbolos da riqueza da cidade, em pedra, cal e fachadas ornamentadas com gesso, nos anos 40 e 50 essas sólidas construções deram lugar aos arranha-céus, que hoje são decorados com vidros fumê de gosto duvidoso.
A preservação do patrimônio arquitetônico, em São Paulo, é reconhecidamente caótica; alguns exemplares da chamada Arquitetura Eclética (realizada na virada do século XIX para o XX) são reconhecidamente bem-cuidados e estimados, como é o caso do Teatro Municipal, ou da Pinacoteca do Estado, antigo Liceu de Artes e Ofícios; outros, como é o caso do casario do Bixiga, se despedaçam em meio ao desconhecimento e a falta de recursos da população e o descaso do poder público.

Mesmo o pesquisador universitário, que se aventura a falar da Arquitetura Paulistana, muitas vezes se encontra numa situação difícil, já que a falta de informação muitas vezes o afasta de seus objetos. O único Guia de Bens Arquitetônicos Tombados, do governo estadual, data de 1984. O centro da reflexão e da produção de conhecimento acadêmico sobre o patrimônio arquitetônico do município continua sendo a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, que abrigou o surgimento de monografias, dissertações, teses e artigos sobre vários temas relevantes a respeito, bem como contou e conta em seus quadros com profissionais ligados diretamente à administração e o restauro desses bens. Apesar dessas importantes iniciativas, bem como esforços da Prefeitura e do Estado, ainda se engatinha no conhecimento efetivo e na preservação de partes importantes desse acervo.
Muitas vezes, tais bens sofrem descuidos por não serem considerados “belos”, ou dignos de interesse. Daí decorrem alguns erros de avaliação, mesmo por parte de proprietários e profissionais da área imobiliária, que reforçam certos preconceitos em relação a partes da produção em Arquitetura na cidade. Talvez, nos próximos anos, possamos observar o nascimento de uma preocupação mais detida, de um carinho e respeito maiores pelos sobrados, prédios, monumentos, estátuas e outros “personagens” da combalida paisagem paulistana.

* professora de História da Arte na Unimep-Piracicaba, Doutora em Teoria Literária pela Unicamp e pós-doutoranda em História da Arte na Unicamp.

terça-feira, 1 de junho de 2010

COLABORADORES: Marco Bettine

(Prezados Leitores, contamos com mais uma colaboração do professor doutor Marco Antonio Bettine de Almeira, da USP).

A GÊNESE DO FUTEBOL NO ESTADO DE SÃO PAULO
por Marco Antônio Bettine de Almeida*

Mês de Copa um pouco de cultura inútil.
Somos bombardeados por informações referentes a Copa do Mundo. Agora Fernando Pessoa entrou na Jogada por ter nascido em um país da África, ele que muito escreveu sobre os ramos de Bétula das escolas inglesas, mas pouco se preocupou pelos caminhos da bola, agora é parte integrante da cultura futebolística. Como vale tudo (até Fernando Pessoa), darei minha pequena contribuição neste universo de inutilidade que acompanha o futebol.
Você sabia que os principais clubes de futebol foram fundados por pessoas que ocupavam cargos importantes em empresas de capital europeu? Estas empresas eram, na sua maioria, de transporte ou do setor de importação e exportação, mostrando que a gênese do futebol no Estado de São Paulo está vinculada aos clubes, mas também a todo o avanço econômico proporcionado pelo financiamento dos meios de transporte no Estado.
Os grandes clubes de futebol nasceram na Várzea do Tietê, nos caminhos das ferrovias para o nordeste e noroeste do Estado e no Porto de Santos. Ferroviária de Araraquara, Botafogo de Ribeirão Preto, Jundiaí Esporte Clube, Ponte Preta de Campinas foram fundados por engenheiros das companhias de estradas de ferro eminentemente inglesas.
Na cidade de São Paulo, a possibilidade de praticar modalidades esportivas no rio Tietê proporcionou grande contribuição no surgimento de agremiações, elas disputaram o primeiro campeonato paulista de 1902 (Esporte Clube Germânia, São Paulo Atletic Club, Internacional Esporte Clube e Esporte Clube Mackenzie).
No Porto de Santos em 1845 ocorre o primeiro jogo não oficial de marinheiros ingleses que aportaram na cidade praiana.
A expressão ‘futebol de várzea’ relaciona-se com os jogos populares praticados na Chácara Floresta várzea do rio Tietê, enquanto os jogos no Velódromo eram praticados pelos clubes de elite.
Futebol e Economia – O futebol é uma importante manifestação cultural e a cada quatro anos presenciamos a comemoração deste fenômeno mundial. Nas nossas terras este fenômeno insere-se nos hábitos, discussões e paixões.
O que torna intrigante é a Cidade de São Paulo ser o centro de irradiação do fenômeno futebol no Brasil, e não o Rio de Janeiro, Capital Federal, onde já havia o movimento clubístico com os clubes de regatas.
Fica clara a relação do desenvolvimento econômico do Estado, mas não como fato isolado, e a vinda de ingleses para a cidade que tinham o futebol como paixão. Mais do que analisar a gênese como algo estático dentro do modelo liberal do Estado é compreender a difusão cultural européia, particularmente a inglesa, como componente fundamental de construção social do Estado de São Paulo, mais precisamente a Cidade de São Paulo. Os recursos econômicos, políticos e culturais são fundamentais para haver as estruturas objetivas, sociais, e, subjetivas, para a divulgação e prática do futebol.
Analisando os clubes de futebol, percebe-se que a dimensão econômica é apenas parte de um processo maior de difusão e influência cultural. Os clubes eram locais de decisão política, freqüentavam as grandes famílias paulistas como: Prado, Albuquerque, Lins, Lanz entre outras. Percebe-se que o surgimento do futebol e o desenvolvimento de sua prática estão inseridos no processo de amadurecimento político das elites européias e na formação embrionária da elite paulista, trazendo não somente o capital, mas seu arsenal cultural e a certeza de formação de lideranças que tivessem relação com os acontecimentos sociais próprios da Europa.
Brasil país do futebol – O afastamento dos clubes de futebol paulistas com a elite nacional e estrangeira e a aproximação popular têm relação com a Semana de Arte Moderna e, posteriormente, o Estado Novo. A partir destes acontecimentos históricos o futebol nacional começa um processo de formação de uma identidade, como diria Oswald de Andradre uma brasilidade, até o Maracanasso e a certeza que o futebol deixa de ser um produto importando para tornar produto com o selo made in Brazil.
(* Professor Doutor da Universidade de São Paulo, Escola de Artes, Ciências e Humanidades. Pesquisador do grupo de Psicologia Política, Políticas Públicas e Multiculturalismo marcobettine@usp.br).

domingo, 16 de maio de 2010

Contribuição ao Blog...

Advertência: O Professor da Escola de Políticas Públicas da USP-Leste, Marco Antonio Bettine de Almeida, escreveu o texto a seguir como contribuição a este Blog. Portanto, o leitor terá contato daqui pra frente também a contribuições externas, inaugurando uma série de contribuições que este blog receberá. A sessão foi batizada como: "COLABORADORES". Encaminho aos leitores o texto:...

O Controle do Mal
por Marco Antonio Bettine de Almeida*

No Brasil, durante as duas últimas décadas, vários movimentos sociais foram organizados servindo de apoio para a luta dos direitos humanos e volta à democracia. Mas, ao mesmo tempo, o país tem testemunhado a proliferação do preconceito e da violência contra “suspeitos” - segundo esta Folha, C3 10/05/2010, houve aumento de 40% no número de pessoas mortas em confronto com a policia. Essa tendência tem se refletido nas mortes de grupos específicos como os motoboys por exemplo (Folha C1 10/05/2010).
No Brasil os direitos civis são extremamente fracos e a fraqueza de um sistema de justiça destinado a servir as elites e adaptado para desmandos institucionais. A morte dos suspeitos de uma classe social determinada atestam a discriminação e desrespeito aos direitos individuais. A violação dos seus corpos com tortura até a morte fortalecem o argumento. Incomoda ouvir “eles podiam fazer o que quisessem porque eram policiais (Folha, C1 10/05/2010)”.
Possivelmente o Brasil, na figura de suas autoridades públicas, ainda não superaram a imagem do criminoso como sendo o pobre, a pessoa negra, os migrantes do nordeste, os filhos de mães solteiras, os consumidores de drogas, os moradores de cortiços e favelas (Teresa Caldeiras no livro Construindo a Democracia, Edusp, p. 287, 2006), estes grupos tem uma expectativa negativa frente a presença do Estado, mais particularmente a policia, propagando o medo e a insegurança.
Na fala do Comandante Geral da Policia Militar o aumento de mortes em confrontos é a matemática entre maiores confrontos versus policia melhor preparada, lê-se violenta. Neste contexto percebe-se que o conceito de segurança propagado é aquele de extirpar o mal. E o mal, nestas contas matemáticas, encontra-se justamente em locais específicos onde se constrói a imagem do criminoso. Em função deste pensamento a autoridade estatal é vista como mantenedora do controle ao mal. E caso a policia não cumpra este dever, pelos olhos daqueles que não encaixam na imagem de criminoso, resta contratar guardas particulares, portões eletrônicos, apoiar justiceiros e atos de vingança.
A partir destes dados ficam algumas questões. Será que a violência policial é algo da corporação pura e simplesmente, ou ela, policia, reproduz uma vontade da sociedade que apoiou, por exemplo, o massacre do Carandiru. Será que o ato da policia é arbitrário por ter espancado um suspeito que dirigia na contramão e não parou, ou esta ação corrobora a pesquisa de Caldeira (1992 – Financiada pela Social Science Research Council) onde a maior parte dos entrevistados afirmaram que uma pessoa que é pega cometendo crime deveria ser assassinada imediatamente.
As questões apontadas não são fáceis de se resolver, porém passados 22 anos da Constituição Cidadã a sociedade brasileira precisa enfrentar estes dilemas: violência, segurança, conter o mal e imagem do criminoso , para ser uma sociedade cidadã.
* Professor Doutor da Universidade de São Paulo, Escola de Artes, Ciências e Humanidades. Pesquisador do grupo de Psicologia Política, Políticas Públicas e Multiculturalismo.