sexta-feira, 12 de maio de 2017

A condenação de Lula



 por Luís Fernando Vitagliano
(publicado no BRASIL DEBATE em 12/05/2017) 

Qualquer pessoa mais atenta e que acessou as gravações do depoimento de Lula dia 10 de maio vai perceber que Sergio Moro já deu sinais de quais argumentos vai usar e como procederá para condenar Lula. Quando o juiz justifica porque as perguntas fora dos autos são importantes e quando o advogado Rene Ariel Dotti, que representa a Petrobrás na acusação e se destempera sobre os protestos da defesa que queria delimitar o interrogatório aos limites dos autos, parte das elites jurídicas reacionárias dentro do direito se vêem representadas pela fala ao sentenciar que a análise do caráter do réu é parte fundamental da análise do juiz, dão pistas do que está por vir.
É o argumento de Rene Dotti que vai justificar a condenação a Lula. Dotti é professor de direito penal na UFPR, não por acaso a mesma instituição em que Sérgio Moro é professor.
Pelo depoimento de ontem, baseado nas perguntas do juiz Moro e no destempero de René Dotti posso antecipar a sentença à Lula? Esse artigo é uma tentativa de leitura do depoimento a partir das perguntas dirigidas ao ex-presidente por parte do Juiz Sérgio Moro e se fundamenta em uma tese muito difundida por críticos aos abusos cometidos pela 5ª Vara de Curitiba: Lula nunca foi réu, nunca teve sua defesa garantida, nunca se supôs sua inocência e, quando indiciado, já estava condenado – as investigações são apenas para justificar sua condenação e não para decidir se há provas para isso. Nesse sentido, frágeis ou não, os argumentos para a condenação são apenas proforma, estágio necessário para a teatralidade que toda operação que se realiza em torno do ex-presidente se concretize.
Lula obviamente não estava sendo analisado a partir dos seus atos, ou seus atos não dão argumentos para condenação. Então será preciso ampliar o escopo para argumentar em favor da sentença. E o argumento da condenação obedecerá a mais retrógrada das doutrinas jurídicas: a análise do caráter. Justifica o juiz: em 2005 o então presidente Lula dizia se sentir traído por membros do governo que cometeram desvios e foram condenados pelo processo do mensalão. Já em 2014, Lula tinha outro discurso, conivente com os condenados e repulsivo a justiça. O eminente Juiz dá a entender que há evidente desvio de caráter em Lula, que aquele presidente que era a favor das investigações e das condenações ao longo do seu mandato e fora da presidência tornara-se parte conivente e interessada da corrupção. Nesse argumento, Lula será condenado porque se soma os indícios (não comprováveis) de desvio de função e tráfico de influência com a personalidade distorcida pela mudança do caráter do ex-presidente.
Em claro português: Lula será condenado primordialmente por preconceito de classe, depois por desentendimento do que é política e total incompreensão do que é uma gestão pública e o papel de um presidente da república ou de um político. Para isso a necessária materialidade do crime se torna desnecessária. Moro analisou, portanto, o caráter de Lula e tem provas de sua mudança para uma mentalidade criminosa, deduzirá isso do depoimento e das declarações de Lula a imprensa.
Condenará sem laudo psicológico ou materialidade, mas a partir da relação entre as evidencias: desvio de caráter do réu e indícios de crime apontados pelas testemunhas. Se é possível estabelecer uma relação causal entre as coisas? É como se supor que uma carteira que estava em cima da mesa foi roubada por alguém que estava próximo. Por que? Você estava perto, é possível e por que seu caráter demonstra que em algum momento da sua vida você proferiu a frase: “achado não é roubado”. Essa é mais ou menos a lógica do criminalista René Dotti ao se contrapor a defesa e dizer que a analise do caráter de Lula orienta o interrogatório de Moro.
O argumento positivista de que o caráter ou a origem inata do criminoso é argumento suficiente para a condenação sumiram do direito contemporâneo por um motivo muito simples: a história mostrou a quantidade de erros e condenação de inocentes desmonta a tese das análises inatas e adquiridas da personalidade. É aquele argumento que leva a supor que Judeu tem tendências a desvio de caráter, que negro é propenso à baixa inteligência, que cigano é predisposto à bandidagem. É o argumento que supõe que petista não sabe governar ou que governa desonestamente, mas que governa bem e com mais honestidade que outros? Impossível pelas possibilidades da determinação positivista do direto.
Parece uma ideia estúpida, mas é essa a linha de interrogatório que seguiu Moro. Recortar e colar os discursos de Lula fora de contexto só mostra que o juiz precisava de uma “materialidade” (declarações soltas de Lula à imprensa) de que ele teria mudado de posição quanto à corrupção para dizer que o caráter do ex-presidente é ou tornou-se corrupto e que isso associado à leniente com criminosos do seu partido leva a supor que Lula desviou-se da conduta moral de um réu inocente. O argumento parte do suposto jurídico de que o Juiz é capaz de analisar (como um profissional do divã – neste caso sem laudo técnico) o caráter de um réu.
No melhor estilo positivista lombrosiano Moro já determinou no seu interrogatório que Lula é uma figura perigosa e de caráter corrupto. Não tem provas, mas suas convicções mostram que um filho de retirante nordestina, que foi engraxate e se tornou torneiro nas fábricas do ABC não pode ter caráter de presidente, não pode desempenhar essa função corretamente. Por trás disso existe o preconceito sempre presente nas elites brasileiras de que Lula não pode dar certo e se deu, é preciso condená-lo e recuperar as rédeas da história. 

Luis Fernando Vitagliano é cientista político professor universitário e autor deste blog

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

O pulso ainda pulsa: a ocupação das Escolas Públicas no estado de São Paulo pelo olhar de um educador. (por Luiz Carlos Seixas)

(O post desta semana abre espaço para o professor, educador, sociólogo e a quem tenho a honra de chamar de amigo, Luiz Carlos Seixas, o texto abaixo, de sua autoria, coloca-nos sob uma reflexão acerca da ocupação das escolas públicas de São Paulo. Boa leitura!)

O pulso, Titãs

[...]O pulso ainda pulsa
E o corpo ainda é pouco
Ainda pulsaAinda é pouco[...]”

Por Luiz Carlos Seixas[1]


            Desde o começo do mês de novembro de 2015, Escolas vêm sendo ocupadas por alunos, pais e professores no estado de São Paulo. Motivos, causas ou razões? São vários, mas destaco alguns: resistir contra o processo de Reorganização da estrutura das Escolas que aponta para o FECHAMENTO, sim, é isso mesmo, fechamento de 94 Escolas; garantir uma Educação com qualidade social, pois é mais do que comum garotas e garotos passarem o ano letivo sem professores de Língua Portuguesa, Geografia e Biologia, entre outras disciplinas; garantir participação efetiva nas estruturas de gestão da Escola para que sejam parte do processo educacional e da própria Escola, ou seja, eles querem mais democracia; professores mais bem pagos; resistir ao processo de entrega da educação pública do estado de São Paulo ao setor privado, leia-se privatização, entre outros. Por mais paradoxal que pareça, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) e seu secretário de educação Herman Voorwald, “propõem” fechar Escolas no momento exato que precisamos de mais Escolas e mais Educação.



            O que há de novo nesse movimento organizado por jovens das Escolas Públicas do estado de São Paulo? Penso que os estudantes, como atores sociais coletivos, ressurgem na cena política brasileira, parafraseando Eder Sader, como novos personagens em uma nova conjuntura e com uma velocidade que ninguém esperava, tal qual as mobilizações de Junho e Julho de 2013. Querem mais democracia, direitos e justiça. Atuam de forma mais horizontal e colegiada, articulando ação e reflexão. Aliás, cabe ressaltar, que os estudantes, de forma mais organizada, estão presentes na cena política brasileira desde os anos 1950, apesar das inúmeras tentativas de silenciamento, sobretudo nos anos de chumbo (1964-1985). Foram esses elementos que chamaram minha atenção para que saísse de casa, do aconchego da vida, para perceber que o “pulso ainda pulsa”, que o novo aparece nos resíduos.

            Foi a partir do dia 19 de novembro que procurei garotas e garotos da Escola Estadual Caetano de Campos da Aclimação, com a mediação de um ex-aluno, agora professor. O que encontrei na Escola em minha primeira visita? Alunos tomando conta da Escola, ocupando, limpando, cozinhando e assumindo tarefas para o seu funcionamento e manutenção. Preciso confessar que nesse primeiro encontro fiquei emocionado por encontrar aqueles jovens ali onde aprendi a ser educador, na Escola. Apresentaram-me seus lugares, ocupados ou não. Informaram como se organizam, como a cozinha funciona e mostraram a despensa com as muitas doações.

            Na cozinha encontrei dois garotos responsáveis pela escolha e preparação do cardápio para os colegas, cozinhando para pelo menos 50 pessoas no café, no almoço e no jantar. Cuidavam também da organização da cozinha após cada refeição. Um deles demonstrou o desejo de ser um chef, cozinheiro mesmo. Nesse momento pensei, por que não? Com um simples gesto desse garoto compreendi que a Ocupação serve de mote para que ele expresse o seu desejo na ação, pois a Escola não lhe oferta essa possibilidade no cotidiano. Ao despedir-me nesse primeiro encontro disse-lhes que se quisessem traria pão fresco na manhã seguinte, o que foi aceito.

            Na manhã seguinte lá estava eu as 8 horas, como prometido, mas o café já estava servido e com todos retomando seus lugares conforme o acerto da noite anterior. Alguns já estavam com a vassoura à mão e começavam a limpeza da Escola. Outros, ainda sonolentos, exibiam seus corpos cobertos por pequenas mantas, vagando pelos imensos corredores ou deitados no colo de algum amigo pedindo, sem falar, aqueles cinco minutos a mais para o organismo despertar. Como todo corpo que desperta e cresce, começam a se exercitar e, garotas e garotos, jogam bola juntos. Num outro dia, estenderam um plástico em uma das rampas, molhando e jogando sabão para fazer um grande escorregador para seus corpos já grandes, crescidos. Deixaram de ser meninos e meninas por um momento para serem apenas corpos que sorriem com o prazer da brincadeira.

            Acompanhando o cotidiano da Escola, desde então, muitas foram as atividades pedagógicas e de aprendizado que presenciei. Oficinas de Fotografia, de Literatura e sobre Tecnologia da Informação, palestra sobre Feminismo, roda de conversa sobre a presença das Ocupações na mídia: o que estão falando?, sobre resistência não violenta e sobre ativismo e movimentos sociais. O traço marcante dessas atividades é que eles escolhem e deliberam sobre o que fazer ou o que ouvir, a partir da disponibilidade daqueles que apoiam as ocupações, pais, educadores ou profissionais de várias outras áreas do conhecimento. Isso sim é inédito, pois na Escola não aprendemos a nos fazer ouvir. Somos todos – alunos, professores, pais e comunidade, apenas o alvo das decisões tomadas em gabinetes distantes do mundo real. Esses jovens aprendem política fazendo política.

Destaco ainda, nessa breve trajetória, mais dois aspectos: o cuidado que garotas e garotas tem demonstrado com a infraestrutura da Escola e a forma como tem recebido a comunidade que apoia a ocupação ou quer conhecer mesmo sem ainda apoiá-la. No Caetano, por exemplo, o jardim da frente estava com o mato alto e não era alvo de cuidado há alguns meses. Eles se organizaram para cortar o mato e também refazer os espaços ao redor das árvores, até então encobertas. Dentro de um grande jardim criaram seus próprios jardins dentro da Escola e agora é possível enxergá-la de dentro para fora e de fora para dentro. Vários lugares têm sido objeto de intervenção e cuidado. Limpam um lixo que parecia estar lá há alguns meses ou até anos. Em duas oportunidades presenciei a recepção de pais e comunidade para o almoço. Foram pelo menos 150 pessoas em cada um dos dias. Qual o sentido disso? Para educação, pertencimento, sem o qual ela não se realiza, não se completa.

            O que vejo nessas ocupações são os desejos, pretéritos ou futuros, dessas garotas e garotos. Hoje são elas e eles que nos dizem o que querem em sua Escola. Lutar, cuidar, resistir, brincar, conversar, agir, organizar, estudar e aprender são verbos que tenho reaprendido a conjugar com essas garotas e garotos. Nesse exato momento esses jovens estão sob ataque do governo Alckmin, de seu secretariado e da mídia monopolista, pois incomodam o institucionalizado e o estabelecido, e ocupando mostram que existem, que estão ai. O que devemos ou podemos fazer? Apoiá-los, é claro! Comparecer em suas Escolas, aos lugares que querem ficar, pois ai existem laços e sentidos que só se tornam perceptíveis quando fazemos parte. Da janela de nossas casas, do conforto de nossos sofás ou da tela de nossos computadores e celulares, pouco sabemos e nada fazemos. Vá até uma Escola Ocupada e sinta que ali o pulso, ainda pulsa!




[1]     Mestrando no Programa Interdisciplinar de Pós-Graduação em Humanidades, Direitos e Outras Legitimidades – DIVERSITAS – FFLCH/USP 

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Vereadores: tempos difíceis, atenção redobrada

(publicado em Teoria e Debate da Fundação Perseu Abramo:
http://www.teoriaedebate.org.br/materias/politica/vereadores-tempos-dificeis-atencao-redobrada?page=full

“Existimos”. Esse é o recado dos vereadores à direção partidária captado em uma amostra do levantamento realizado pela Secretaria de Formação do PT do estado de São Paulo para saber quem são e o que pensam os parlamentares petistas municipais

A estrutura partidária quase não enxerga o parlamentar no munícipio
A estrutura partidária quase não enxerga o parlamentar no munícipio
Foto: Filipe Mesquita de Oliveira/Wikimedia
Elegemos no estado de São Paulo 673 vereadores petistas em outubro de 2012. Talvez haja um pouco menos, atualmente, em exercício de mandato, em razão de algumas desfiliações e expulsões. Ainda assim, temos pelo menos 660 vereadores do Partido dos Trabalhadores em atividade no estado.
Existe uma tendência natural de vermos a atuação partidária focada na relação com os prefeitos e com os deputados e pouca (ou praticamente nenhuma) relação com os vereadores no sentido organizacional. A gravidade do problema aumenta quando se constata que o cargo de vereador, o que tem a maior capilaridade partidária, por ser o mais próximo da base política da sociedade e dos militantes, está disperso em áreas enormes. Isso ocorre mesmo no estado de São Paulo, que tem boa interligação e é relativamente denso geograficamente. Em cidades de pequeno e médio porte, não é incomum encontrar um único ou dois mandatos isolados petistas fazendo oposição a um mandato Executivo de direita.
Além disso, ao olharmos com atenção o quadro a seguir, vemos o quanto o PT cresceu em número de cargos legislativos municipais. Entre os dez maiores partidos, o PT foi o que mais aumentou sua representação de 2008 para 2012 (22%), totalizando 5.067 vereadores em todo o Brasil em 2012. É o terceiro maior em cargos de vereador, perdendo apenas para PMDB e PSDB, que elegeram menos em 2012. Isso é contrário e oposto a qualquer cenário de crise. Mas nosso diagnóstico geral, dados os ataques que o PT vem sofrendo da grande mídia em especial e do Judiciário em parte, vamos ter uma queda considerável dessa capacidade eleitoral se medidas urgentes não forem tomadas para revitalizar essa relação entre a direção partidária regional e municipal sob a orientação programática do Diretório Nacional, que precisa olhar com maior atenção para a conjuntura descrita neste artigo.
Do ponto de vista organizacional, a estrutura partidária quase não enxerga o parlamentar no município. O próprio cargo de vereador é invisível enquanto representação partidária. Isso pode ser justificado por vários motivos: são em número muito grande, a dispersão existe, os vereadores têm pouco poder efetivo em um sistema político em que o Executivo se concentra sobremaneira nos municípios, e assim por diante. Mas o fato é que não são convocados para debates nem consultados sobre os assuntos partidários e, quando chamados, o são na mesma leva dos militantes de base, posicionando-se de igual modo ou sendo considerados de igual modo.


Fonte: Viomundo reproduzindo infográfico do jornal O Globo. Disponível em: http://www.viomundo.com.br/politica/o-balanco-da-eleicao-para-vereadores.... Extraído em 21/4/2015.

Com essa percepção à vista, foi elaborada pela Secretaria de Formação do Diretório Estadual do PT de São Paulo uma pesquisa simples e fácil de ser reproduzida em todas as outras esferas estaduais. A proposta foi entrar em contato com todos os vereadores e todas as vereadoras eleitos, por telefone, para que respondessem a cinco perguntas rápidas, com foco na questão da formação política:


1) Há quanto tempo é filiado do PT?
2) Qual tema gostaria que fosse abordado na formação política para vereadores (para o exercício do mandato)?
3) Curso de EaD (a distância, via internet) surtiria algum efeito na formação política de base?
4) Participa de alguma comunidade religiosa?
5) Participa de algum movimento sindical ou social? Por exemplo, MST, MTST, MAB, academia/universidade etc.

Os resultados dessas formulações parciais podem ser resumidos nas considerações a seguir. Correspondem ao levantamento prévio que representa a base de setenta vereadores dos municípios ligados às macrorregiões do ABC, de Guarulhos e de Osasco. Sugerimos que outras secretarias façam também suas consultas.

Sobre a primeira questão (tempo de filiação), podemos dividir em dois tipos de resposta: o quadro histórico que conhece e milita no PT desde os anos 1980 e 1990 e tem boa consciência de seu papel político e aquele que aderiu recentemente ao projeto do partido, em grande parte estimulado pelas vitórias eleitorais. Em relação a este, percebemos uma dificuldade tremenda de saber quem são os novos vereadores. Essa nova geração de vereadores não está entre os "quadros históricos" do PT nos municípios e muitos mal são conhecidos pela burocracia partidária em suas próprias regiões. Não são quadros forjados nas estruturas do partido (e, mais grave, não foram acolhidos), mas constituíram uma base pessoal considerável. Por não terem relações históricas com o PT, conhecem pouco os caminhos a seguir, sentem necessidade de diálogo e contato com as lideranças do partido, particularmente, na relação com as instâncias internas.

Para a segunda pergunta (tema para aprimorar a formação), a resposta foi bastante direta: nossos vereadores sentem extrema necessidade de aperfeiçoar sua atuação parlamentar no sentido técnico e sentem necessidade de iniciativas externas para isso, pois não têm conhecimento, embasamento, assessoramento próprio que os auxilie. Os temas mais técnicos são os mais emergenciais. Os mecanismos da legalidade legislativa (formatação de projetos de lei, compreensão e diferenciação entre leis ordinárias e leis complementares, emendas em leis etc.), governo, gestão, orçamento, estatutos e emendas parlamentares precisam ser discutidos, apresentados e trabalhados segundo uma visão petista e transformadora da sociedade.

Na terceira pergunta (sobre o EaD), a percepção é que estamos engatinhando no uso de ferramentas modernas de formação. Nesse campo, já são conhecidas e incorporadas as iniciativas da Fundação Perseu Abramo e seu caminho, por meio de cursos do Laboratório de Gestão, como um espaço importante de formação. Mas algo específico para o Legislativo não chega a ser citado ou trabalhado e sempre se torna foco o caso do Executivo e seus problemas. Nossa impressão – do modo como as coisas se desenham – é que vereador é um cargo de expectativa (como o de vice-prefeito): você está vereador para esperar as condições ideais (ou melhores) para candidatar-se a prefeito.

As respostas à quarta pergunta, sobre a questão religiosa, não deveriam, mas surpreenderam. Em sua base política institucional (vereadores), o PT ainda mantém uma relação muito forte com as religiões, marcadamente com a Igreja Católica: 30% dos vereadores petistas são católicos praticantes e 10%, evangélicos – em quase sua totalidade, neopentecostais.

Os vereadores evangélicos crescem exponencialmente e, na contramão disso, são os que mais sofrem pressão social para sair do PT. Alguns relatam ser pressionados por seus pastores para abandonar o partido. A base religiosa ainda é forte e tem gerado problemas legislativos enormes em razão da falta de atenção sobre esse tema.

Os relatos sugerem que os vereadores são uma oportunidade aberta para discutir a relação político-partidária com a base religiosa da sociedade. E a melhor referência para dar respaldo à questão é o próprio histórico do PT, sintonizado com a discussão da inclusão social, da liberdade religiosa e do acolhimento à diversidade. Como exemplo, podemos citar a Grande São Paulo: temos 3% dos quadros (ou dois vereadores) que são pais de santo, com atividades ligadas às religiões de matriz africana – um à umbanda e outro ao candomblé. No âmbito federal, podemos dizer que boa parte dos parlamentares da “base aliada” que fazem às vezes o papel de parlamentares de oposição tem em sua origem e base política as igrejas cristãs e são notadamente evangélicos.

O fato é que relegamos ao total descaso os processos municipais, sujeitos a todo tipo de indefinição e conflito, e o abandono dessa base ou o desconhecimento desses dados internos do PT podem tornar-se um problema irreversível.

Na última questão (sobre a participação em movimentos sociais ou sindicais), aparece outra preocupação para a qual nossa política deve atentar: embora tenhamos ainda boa parte dos parlamentares ligada a movimentos sociais e sindicais, é grande o número de vereadores eleitos que não tem relação com nenhum tipo de movimento. Assim, a última pergunta se liga à primeira. As novas gerações são descoladas de base organizada nos movimentos sociais e se sustentam no próprio nome ou no mandato. Além de serem  naturalmente mais frágeis, cabe perguntar que mecanismos organizam esses mandatos. Seriam os mesmos mecanismos clientelistas da direita? Não é o caso de dar mais atenção, formação a esses mandatos, antes que sigam o caminho do parasitismo puro em relação ao partido?

No momento em que a conversa permitiu uma manifestação mais livre ao entrevistado, foi-lhe perguntado o que gostaria de dizer ao diretório sobre sua atuação política e que cobrança ou contribuição teria a apresentar. A palavra mais repetida foi “existimos”.

Para a maior parte daqueles que foram procurados por telefone ou receberam visita da direção estadual, esse foi o primeiro contato feito por uma secretaria do PT com eles, seja no atual mandato, seja em outros. Nossa expectativa é que a formação política direcionada preencha esse vazio que se coloca entre o partido e esse quadro dirigente, que muitas vezes é confundido com militante de base.

O resultado dessa pesquisa ainda não está completo em nível estadual, pois seguimos conversando com parlamentares municipais das demais macrorregiões do estado de São Paulo. Mas é notável que essa amostra surja como uma necessária preocupação política do Partido dos Trabalhadores em nível estadual e nacional, principalmente tendo em vista que os vereadores dessa etapa da pesquisa são moradores da região metropolitana da capital paulista, razão pela qual, pelo menos em tese, têm maior proximidade ao menos geográfica com as lideranças políticas do PT das instâncias superiores. No entanto, isso não é, no caso dos vereadores, um privilégio, pois a distância das quais reclamam aparece do mesmo modo quando se dialoga com vereadores do interior. É mais do que urgente debatermos uma política de formação, acompanhamento, apoio, gestão e assessoramento político aos mandatos de nossos vereadores e vereadoras, pois são eles e elas os que primeiro debatem, explicam, justificam, combatem a direita. São a linha de frente do partido e reconhecidas referências políticas em suas bases. Alguns são os caminhos que nos levarão a sair da atual crise política, e o diálogo com nossos vereadores e vereadoras, com certeza, é um deles.

Toninho Kalunga está na coordenação da Secretaria de Formação Política do Diretório Estadual do PT de São Paulo e foi vereador por dois mandatos (2004-2012) em Cotia (SP)

Luís F. Vitagliano é professor de Ciência Política e integrante do Laboratório de Gestão e Políticas Públicas da Fundação Perseu Abramo

domingo, 9 de novembro de 2014

Nem golpe, nem chantagem: a redenção dos derrotados

Por Luís Fernando Vitagliano

Muita gente aparenta estar preocupada, assustada ou, pelo menos, incomodada com as manifestações de ódio e até com as especulações e pedidos de impedimento da presidenta. Mas, o blefe não pode ser visto assim, porque o resultado improvável dos golpistas é menos importante que seus efeitos indiretos para a determinação do novo governo: trata-se de uma estratégia orquestrada para minimizar o impacto da vitória do PT e provoca a esperada acomodação conservadora que sempre se instaura com a derrota das elites.

Não, não há condições e não haverá terceiro turno. As eleições acabaram e o que está em jogo neste momento é qual será a direção do novo governo.

Não existe possibilidade objetiva para nenhum golpe. Em primeiro lugar porque não há apoio internacional e isso é pré-condição fundamental para qualquer ação antigoverno. Embora pareça jargão, é fato: se não há apoio dos EUA, não há condições materiais nenhuma para o golpe.

E por que não há apoio dos EUA?

Em primeiro lugar, o próprio presidente Barack Obama obrigou-se a rapidamente dizer em público que reconhecia a democracia brasileira, parabenizou a presidenta reeleita e reconheceu o resultado das urnas. Ou seja, dizia aos seus (aos investidores que tem dinheiro no Brasil) que qualquer aventura não contara com o arsenal ou o endosso do governo dos Estados Unidos. Depois de atuarem fortemente nas eleições, apoiando no submundo da informação e do mercado e favorecendo um ou dois candidatos da direita, reconheceu a derrota e agora vai tomar sua clássica medida pragmática de minimizar possíveis perdas.

Fora o reconhecimento do atual governo, não há alternativa aos EUA. Apoiaria um impedimento da presidenta no Brasil ou um golpe civil militar se houvesse condições de vencer. Mas, qualquer indicação de que o governo Obama não iria reconhecer os resultados eleitorais do Brasil, China, Índia e Rússia fatalmente não vão se calar. O BRIC não silenciaria, diante dessa ação imperialista. Reunidos no Brasil em agosto deste ano duas medidas foram inéditas e fundamentais para a garantia de novas parcerias estratégicas que ressaltaram a soberania brasileira e sua independência: acordos de desenvolvimento de tecnologia próprios em segurança e defesa e o Banco dos BRICs com a maior carta de crédito do mundo. Foi sem dúvidas a maior vitória da política externa do governo Dilma em termos de resultados.

E não se trata de oposição aos EUA. Mas, de equilíbrio de poder.

Os EUA não vão bater de frente em uma aventura contra o Brasil. Sua avaliação agora é que se tencionar a relação podem ficar fora do jogo e perder a mais importante parceria estratégica do hemisfério americano. Já avaliaram e sentenciaram que não existe essa condição de reverter o quadro e o próprio Obama já tratou mudar a estratégia, do confronto à fraternidade.

Somado a esse fato, respiraram aliviados Mujica, Kirschner, Bachellet, Morales, Santos, Corrêa e Maduro pelo menos. Não se trata de bolivarianismo como branda a direita torpe. Mas houve sim o autonomismo tomando conta da região depois da onda neoliberal dos anos 1990 que reivindicava a retomada do desenvolvimento tirado da América do Sul pelo Consenso de Washington. Por isso tantos bastidores americanalhados nestas eleições.

Com as atitudes ligadas ao desenvolvimento nacional e autônomo por parte do governo, os militares no Brasil se deram por satisfeitos. Mesmo que incomodados com as comissões da verdade, sabem que o apoio dos EUA custa sempre muito caro e as parcerias com Russia, China, India, União Europeia e Mercosul são estratégicas ao Brasil. Se tem uma coisa que os militares concordam com o PT é em termos de segurança, defesa e política externa.

Ambas as forças debandadas isolou-se em seu palavrório as elites brasileiras.

Os investidores nacionais que perderam dinheiro com a derrota da oposição agora tentarem convencer os investidores estrangeiros a retirar seu dinheiro do país, mas próprio Banco Mundial hoje deu sinais de que não vai entrar na onda conspiratória e reforçou sua posição de que o Brasil é um bom lugar para investimentos. Entre sangrar a economia brasileira para compensar a derrota nas urnas e a urgência de ocupar posições antes que China e Rússia o façam, a elite internacional já se decidiu.

De qualquer modo, a estratégia do choque e do terror é o ultimo suspiro dos derrotados. Se não der certo, pode dar algum resultado. A ação se sustenta na teoria do choque: para vencer o inimigo e mudar a tendência da história, nada melhor que começar a disputa com um choque. O choque neutraliza, imobiliza, trava e enquanto isso você tem momentos preciosos para a ação. O primeiro estrago de qualquer bomba é o barulho. Então, não é por nada que se faz muito barulho. Que já tem seus primeiros termos: é preciso acalmar o mercado.

Todavia, pensando objetivamente e afastadas todas as distopias do terror: a disputa foi vencida por um discurso de esquerda. A oposição não perdeu um jogo, não perdeu uma aposta, não perdeu uma guerra, perdeu a eleição de seu modelo. E não existe nenhuma racionalidade no fato de que mesmo derrotados os agentes do mercado determinam as políticas econômicas. Além disso, Dilma só venceu porque reconheceu que precisa avançar em direção a ampliação da cidadania e isso implica hoje em reduzir vários privilégios de setores parasitários.

Portanto, enquanto as negociações durarem, o clima de instabilidade é estratégico para a direita. Mas, a mobilização das forças progressistas que ainda permanecem no pós-eleitoral é o antídoto a qualquer choque de gestão. E isso tem mostrado que de fato ainda estamos no momento mais radicalizado no Brasil desde 1989 – assim: bastante delicado. Mas, entre as coincidências e os desencontros históricos, é preciso fazer valer que, desta vez, a eleição foi ganha pelo PT.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Corrompidos

Epigrafe: Walter Benjamin sentencia:


“Há um quadro de klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encontra fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas, uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fecha-las. Essa tempestade o impele irreversivelmente o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruína cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos de progresso.” (em: “Obras escolhidas: Magia e técnica. Arte e Política”. São Paulo, Editora Brasiliense: 1987. – Sobre o Conceito de História, página 226).


quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Análise de conjuntura eleitoral ou causas e consequências do baixo desempenho de Padilha como candidato ao governo do Estado de São Paulo.

Em 2014 talvez o PT tenha o pior desempenho das ultimas cinco eleições para governador em São Paulo e isso mesmo que não seja decisivo, pode ser um fator inibidor para as pretensões de reeleição de Dilma (certamente ajuda a campanha não se decidir em primeiro turno). Este texto pretende discutir possíveis efeitos das eleições para governador no Estado e algumas hipóteses do baixo desempenho petista. Antes de tudo, é preciso destacar que o quadro se desenha em dois grandes eixos: campanha dos adversários e do antipetismo e erros coletivos de estratégia do PT.

Pode ser demonstrado que o desempenho desta campanha para governador fica muito aquém do que historicamente o PT atinge, para a eleição de governador em São Paulo. Se compararmos com o desempenho de Aluízio Mercadante há 4 e 8 anos , o PT tinha neste momento, em torno de 23% das intenções de votos - desempenho inclusive melhor que o de Haddad há dois anos (veja gráfico 1):


Em 2012, Fernando Haddad já era apontado nas pesquisas de opinião com cerca de 18% dos votos na mesma época (entre 25 e 26 de setembro). É o praticamente o dobro das intenções de votos que os institutos apontam para Alexandre Padilha hoje (Veja gráfico 2).


De todos os problemas de intenções de votos que podemos observar, talvez o menos importante seja que Padilha era um desconhecido Ministro da Saúde (mais um “poste” indicado por Lula). Com um mês de exposição na TV esse problema se dissipa completamente. Somado ao fato da estrutura partidária e da capacidade de mobilização do partido.

Não defendo que seja um problema do candidato, defendo a hipótese que é um problema mais geral, que vai da estrutura social para a organização de campanha. Se focarmos na cultura política paulista, que certamente é conservadora, e tomarmos como ponto de partida as opções de campanha e decisões equivocadas, talvez haja até uma leitura equivocada da invencibilidade ou da força tucana no estado.

A última e única vez que o PT foi para o segundo turno de uma eleição para governador de São Paulo faz doze anos com José Genuíno.  Ao contrário de Marta Suplicy (que em 1998 deu lugar a Mario Covas para enfrentar Maluf no segundo turno), Genuíno conseguiu sua façanha superando justamente Maluf e atingindo 32% dos eleitores. As pesquisas apontavam 24% das intenções de votos na ultima semana do mês de setembro. (veja Gráfico 3)


O desempenho de Genuíno no segundo turno foi bastante modesto se tomarmos por base aquela conjuntura de onda vermelha com a eleição de Lula e toda a comoção em torno da chegada do PT ao Palácio do Planalto. Assim, de modo geral, todas as apostas de campanha paulista não foram bem sucedidas. Mas, desta vez se torna grave porque todas as expectativas negativas foram superadas e a crença de que em algum momento Padilha passaria Skaf esta cada vez menos provável, mesmo que ainda seja possível levar a disputa ao segundo turno – este fato ainda depende muito mais da capacidade de mobilização do PT do que do PMDB.

Também não podemos atribuir aos méritos administrativos do PSDB o mau desempenho atual. A nota calculada para o governo Alkmin é de 5,9 e seu índice de bom e ótimo é de 41% (Veja Gráfico 04). Se comparado esse número com a presidenta Dilma, ela tem uma nota de 5,6 e um índice de bom e ótimo que oscila em torno dos 39%. São avaliações muito próximas. Acontece que o governador tem 14% de índice de rejeição enquanto a presidenta tem 31% - mais que o dobro. O próprio Alexandre Padilha em São Paulo tem um índice de rejeição de 23% - vindos simplesmente de onde?


Portanto, Alkmin não faz um mau governo, mas também não faz um bom governo opinião do eleitorado. Do ponto de vista qualitativo, é o governo mais frágil dos últimos 16 anos de PSDB. Violência Pública estourando, escândalos abafados do Metrô, nenhuma marca ou realização importante, crise pra lá de séria na água. Por que então podemos julgar que o eleitor paulista apresenta dois pesos e duas medidas em relação aos governos do PT e PSDB? E principalmente, por que – ao contrário do cenário nacional – a campanha não tem efeito em relação ao eleitor rever sua posição?

A resposta padrão: Mídia, em parte explica. Mas apenas em parte.

São Paulo tem a mídia impressa mais tendenciosa do país. Mas, isso não é apenas causa como também efeito para o eleitorado reacionário. Os jornais (Folha e Estado), as revistas (Veja, Época e Isto É!) são compradas em massa pelos eleitores paulistas. Muitos buscam as informações que esses veículos de comunicação apresentam. Como existe mais poder aquisitivo no estado, existe mais propensão a assinar um jornal ou revista por parte do eleitorado. Se esta classe média (com todos os problemas que o termo tem) é maior, maior será seu peso nas decisões públicas e eleitorais.

São Paulo se divide claramente em centro e periferia – como o restante do Brasil. Mas, diferente do restante do país, o centro é tão volumoso quanto a periferia. De outro lado, deve ser o estado da federação que mais diferenças na relação entre capital e interior – e o interior tem uma classe média conservadora mais volumosa que não pode ser medida em termos de renda, mas deve ser pensada em termos de comportamento político (basta ler “os parceiros do rio bonito” de Antônio Cândido para perceber a diferença entre o bandeirante e o caipira)

Se a região metropolitana de São Paulo é concentrada, tem metade dos eleitores e 39 municípios, a outra metade está em 606 municípios bastante distribuídos pelo interior do estado.  A tradição sindical não chega ao interior, as questões das grandes metrópoles também não. Nem Campinas ou Santos podem falar em problemas sérios de mobilidade urbana que tem a RMSP. A violência ocorre, mas é diferente. São Paulo do interior é movido pelo desejo de progresso realizado pela capital. Fazer campanha no interior é diferente de fazer campanha na RMSP. No ABC por exemplo (berço do PT), os movimentos sociais são fortes e poderosos. No interior, alguns movimentos surgem, mas são rapidamente abafados e tem muito menos impacto. Já a mídia chega diretamente a todos os municípios. Sem o contraponto da militância, do partido, dos apoios, é a mídia que faz sua vez. O discurso conservador tem mais base social - mais importante que isso, ao contrário da capital, no interior o contraponto é frágil ou inexistente.

O argumento acima explica alguma coisa sobre as dificuldades do Partido e também em mais uma vez perder as eleições. Mesmo vencendo nas grandes cidades e RMSP, ainda é inexpressivo em cidades do interior. De outro lado, é um argumento insuficiente para explicar porque também perdeu espaço nesta eleição e o que ocorrerá em 2014.

É preciso perceber que o impacto de “mesalões” e denuncias em cidades de pequeno e médio porte foi devastador justamente em um momento que o PT organizava sua capilaridade no estado. Lideranças locais formadas por classes médias e profissionais liberais desmobilizaram os diretórios municipais do partido e foram para outras frentes – creio que o PSOL cresceu mais que o PT no interior de São Paulo nos últimos quatro anos, mas não tenho números para sustentar esta afirmação. O fato é que se o PT quer ganhar uma eleição em São Paulo precisa fazer o que Orestes Quércia fez na década de 1980: correr o interior do estado e instrumentalizar diretórios e lideranças locais que possam trabalhar comprometidos com um novo projeto.

Minha análise para o encolhimento gira em torno de outra explicação: a aposta errada nos cabos eleitorais pode explicar melhor o baixo desempenho da campanha padilhista e ligar as barreiras enfrentadas historicamente pelo PT ao desempenho eleitoral abaixo das expectativas.

O PT confiou demais na capacidade da militância profissionalizada (ou contratada, como queira), nos cabos eleitorais contratados por candidatos proporcionais e em lideranças políticas locais. Candidatos a deputados, disputa no senado, ligações com prefeitos aliados, tudo isso criou e cria uma estrutura profissional de campanha. Praticamente isso tomou a frente de militantes históricos e de voluntários. Hoje tem mais volume a militância profissional – não que ela não deva existir, mas não pode substituir, como tem ocorrido. O contratado que trabalha pra um candidato a deputado pede voto para ele e só para ele: têm objetivos, metas, padrões a cumprir. Defende a Dilma se dá, o Padilha se não atrapalhar, mas sua clareza de propósito o faz muito diferente de um militante que conhece, defende e divulga todo o projeto do partido.

Aquele militante histórico que tem conseguido êxitos indiscutíveis na campanha nacional (claro que também misturado ao cabo eleitoral profissional), faz falta na campanha para governador. Não só porque foi engolido pelo cabo eleitoral profissional, mas também porque tem pouco material de trabalho. E neste sentido entra um segundo erro grave: Alexandre Padilha tem pouco apoio fundamentado para instrumentalizar os defensores da sua candidatura. Não temos muitos “memes” nas redes sociais, não produzimos estudos sobre a situação do estado, estamos produzindo poucos dados e baixo volume de informações para ser usado nesta eleição em São Paulo. Isso se dá por muitos motivos – a eleição majoritária é mais importante e muito difícil, o governador erra menos em declarações e propostas, a mídia local é mais concentrada que a nacional. Enfim, o fato é que os militantes e apoiadores diminuíram e a engrenagem que move o PT articulando produção intelectual do partido, divulgação da militância e defesa da candidatura tem uma correlação baixa para as eleições paulistas.

Vou ficar em apenas um exemplo. Facebook. Temos a Dilma Bolada (iniciativa isolada de um fã da presidente) – que gerou a imitação da Band da presidenta; isso ajuda a gerar simpatia entre o eleitor e o político, não tenha dúvida. Agora temos o Haddad Tranquilão... e surgiu o Haddad Prefeito Gatão – certamente o segundo é ação espontânea da militância. Sites, temos vários de apoio à presidenta. Brasil Muda Mais é o que recebeu mais ataques da oposição, mas não só. Vários blogueiros. Tudo isso é material que a militância usa porque de tudo isso surgem argumentos em defesa da candidatura, do governo, de tudo. Vejamos que até a popularidade de Fernando Haddad que está sob constante e incessante ataque em São Paulo teve um salto enorme para melhor.

Não é incompreensível que Padilha esteja em baixa. Os tradicionais votos petistas estão em risco no estado porque o trabalho se concentra em prefeitos, deputados e lideranças sem espalhar-se pela base social do partido de forma a aglutinar forças. O formador de opinião é fundamental. Só somos reféns da mídia hoje porque pecamos no ataque e no contraponto. Está limitado à esfera nacional o voluntarismo que tanto caracteriza a militância petista. Isso não deve ser visto como um problema estrutural do Partido, porque não afeta sua base eleitoral tradicional nas cidades industriais e redutos clássicos, mas pode ser um fator conjuntural decisivo e não encontra respaldo em regiões densamente povoadas deste estado, o que traz problemas recorrentemente.

Lula perdeu a eleição de 1989 por conta de seu baixo desempenho em São Paulo. Conseguiu vitórias acachapantes contra o PSDB com a ajuda de um bom desempenho em São Paulo. Perdeu para Serra em 2002, mas não por muitos votos e venceu Alkmin no segundo turno, inclusive em São Paulo. Mas se tivesse ganhado de Alkmin já no primeiro turno, não haveria segundo turno nas eleições de 2006 (veja o gráfico 5). Ou seja, não é que seja impossível ter votos em São Paulo, mas é muito difícil e cheio de percalços o caminho petista em São Paulo. Sempre vai ser um problema conseguir votos no estado.


Feita a exposição do quadro local, nos resta apenas uma pergunta: qual o efeito disso para a eleição presidencial? Atribuir ao baixo desempenho da campanha de Padilha o também baixo índice de intenções de voto para Dilma é um exagero descabido. Não existe uma relação direta de causa e efeito entre uma coisa e outra. É mais coerente acreditar que os dois são consequência das mesmas causas. Além disso, mais para a presidenta do que para o ex-ministro, o baixo desempenho em São Paulo pode ter efeitos negativos imediatos.

Dilma tem chances reais de ser reeleita em primeiro turno. Com o desfalecimento da campanha de Marina Silva, seu crescimento regular amplia a cada dia as chances. Talvez basta que cresça mais 5% ou 6% (o que significaria tirar mais 5% ou 6% das outras candidaturas e ampliar mais 10% ou 12% de vantagem sobre os outros candidatos). Seria um crescimento necessário de menos de 1% a cada dois dias. Neste ponto, São Paulo pode ser decisivo. Primeiro porque o estado está bem abaixo do seu potencial para o PT. Segundo porque o adversário não é o candidato do PSDB que tradicionalmente é defendido no estado, mas uma terceira figura.

Durante muito tempo a campanha petista preservou a presidenta de eventos em São Paulo por conta do risco que a instabilidade em relação ao PT poderia causar. Mas, hoje a situação é bastante diferente e você pode minimizar qualquer risco gerando mobilização de apoiadores e militância. Além disso, a estratégia pode ser revista porque o adversário já não é mais o candidato do PSDB, mas uma candidatura que cresceu pelo antipetismo e que se alimenta inclusive da sua relação com o subproletariado (que hoje se identifica mais com Lula do que com qualquer outro político do país).

Uma votação expressiva (acima dos 40%) em São Paulo é imprescindível para ganhar as eleições presidenciais de 2014? Não. Talvez menos votos em São Paulo possam ser compensados por outros estados. Como já ocorreu. Mas, pelo fato do estado ter a maior proporção de eleitores e do PT estar abaixo do seu patamar histórico, não é difícil mudar a situação local e gerar fatores que possam contribuir para a reeleição ainda em primeiro turno. Com 30 a 35% de votos paulistas certamente Dilma se reelege na primeira rodada. E uma estratégia como essa tem uma boa dose de vantagem em termos de custo/benefício. Mas, para isso será preciso recuperar e mobilizar rapidamente uma militância aguerrida, espontânea e voluntária que esta nas universidades, no jornalismo alternativo, nos profissionais liberais etc, que andam pouco atenta no interior do estado.

De outro lado e independente da questão imediata, reestruturar o PT de São Paulo é fundamental ou sempre vão ocorrer perrengues e mais perrengues nacionais por conta da desatenção que se dá a organização partidária local e cotidiana.

Luis Fernando Vitagliano
é cientista político e professor universitario.



quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Marina Silva e a infantilização da Política

por Luís Fernando Vitagliano*

A tragédia que trouxe ao primeiro plano Marina Silva como protagonista da corrida presidencial de 2014 certamente é um fenômeno inesperado. Mais interessante é que neste momento Marina catalisa e expressa sentimentos antagônicos de toda estirpe e categoria social: entre alguns, ganha ares de messiânica, saiu dos mangues de látex, tornou-se uma política bem sucedida e, por evitar estar no acidente aéreo, tornou-se predestinada a eleger-se como presidente para representar miseráveis e sem esperanças; entre outros expressa o desejo de mudança com sua ‘nova política’, uma terceira via de desenvolvimento sustentável que concilia interesses; também é a expressão de políticas conservadoras que, finalmente, associa-se a esperança de derrubar a presença do PT no governo. Como seria possível uma candidatura capaz de representar uma gama tão vasta e contraditória de aspirações?

Em essência, Marina ganha protagonismo justamente por não representar nenhuma das alternativas acima. Não é uma líder messiânica, embora deixe transparecer propositadamente ares de humildade e devoção. Não tem nenhuma proposta consistente para o meio ambiente, tanto que seu ministério foi inexpressão em resultados, além de seu ecocapitalismo ser constantemente questionado por ser confuso e/ou impraticável.  Ao defender a política de austeriade do Banco Central e sua independência, flerta com o mercado financeiro, mas fala em justiça social, distribuição de renda e melhoria para os mais pobres com ajuda do Estado talvez sendo incapaz de cumprir qualquer uma das duas promessas. Ao falar do PT (partido que fazia parte até recentemente) defende que quer governar com Lula – e FHC – o que é inviável em qualquer cenário político.

Marina, por tamanhas as contradições sobre o que diz e o que propõe fazer, corre o risco de não ter nada em sério que a sustente. E talvez seja justamente suas inconsistências que a tornem fenômeno eleitoral. Para isso temos que concordar que existe um forte movimento de infantilização da política.

O movimento de infantilização da política não é exclusividade da atual campanha eleitoral. Humor, ridicularizações, jingles, frases de efeito, efeitos em áudios e vídeos das propagandas e todas as ações de marketing vêm ganhando protagonismo ante propostas e debates. A política tornou-se terreno fértil do espetáculo. O objetivo das campanhas tem sido busca atrair para o grande publico para o circo de atividades e, independente do debate, conquistar o voto. Assim como no consumo, os políticos tem retirado a ideologia do seu discurso, para vender facilidades a um público cada vez maior. Assim, não importa o que ocorre antes ou depois de uma eleição, não importam as consequências dos atos e as responsabilidades públicas, importa que o voto seja conquistado. Só num mundo como este, onde não se discute decisões, deliberações, ganhos e perdas, vencidos e vencedores, Marinas, Fernandos e Jânios surfam desimpedidamente, na crista da onda criada pelo vácuo do debate.

Não existe segredo em política. Também não existem milagres. Políticas tratam de propostas e problemas. Boas políticas públicas resolvem problemas difíceis. Boas políticas são como bons remédios: tem gosto amargo, aparecem com um dano, mas podem gerar bem-estar social. Bons políticos tomam decisões difíceis.

A vida adulta ensina a cumprir compromissos. Ainda que sejam duras as obrigações, descobre-se em algum momento que cumpri-las é o melhor caminho para o sucesso. Ter responsabilidade significa muitas vezes optar por caminhos difíceis de trilhar, em alguns casos mais longos, em outros mais penosos. E não se trata de tornar-se conservador para alcançar as boas decisões, porque ser responsável não é sinônimo de ser conservador.

Do mesmo modo, o caminho da política não é um caminho fácil. Mas, em democracia, desacreditar no voto e desacreditar na política é o caminho dos irresponsáveis e imaturos. É também eximir-se da decisão. É uma manha como dizer: “se não tem o que eu gosto eu não faço nada". Isso gera um processo de esvaziamento da política que premia aventureiros. Independente de qualquer desgosto com a política, necessariamente teremos políticos que vão deliberar; se a sociedade não acompanha, os oportunistas podem se dar ao luxo de deliberar mau e decidir errado – ou pior: decidir propositadamente em favor pequenos grupos em prejuízo das necessidades públicas.

O movimento é até mais amplo. Boa parte de nossa sociedade – assim como crianças, jovens e adolescentes imaturos – tem evitado decisões difíceis. Jovens não gostam de tomar decisões que resolvem problemas, mas comprometem desejos. Se com pouco dinheiro, por exemplo, uma criança e tentar comprar doces e sorvetes, o vendedor pode força-la a escolher entre um e outro. A simples situação de tomada de decisão paralisa a criança e a faz chorar. Quando não buscam formas controversas de conseguir o que querem, como manhas ou tentativas de mudar as regras, crianças ficam insatisfeitas com resultados parciais para seus desejos momentâneos. Do mesmo modo ainda imaturo, os jovens não gostam de ser contrariados. Não suportam que seus desejos não sejam atendidos. Não gostam, por exemplo, de pagar contas porque os pagamentos inibem seu poder de compra. É normal que durante um período de adaptação os adolescentes sejam irresponsáveis com suas obrigações. Só ganham autonomia os jovens que demonstram ser responsáveis, seja na vida financeira ou na parte afetiva.

Não é preciso defender nada de novo para mudar a política. Não há formula mágica como querem os adolescentes para conseguir sorvetes e doces. No Brasil, para fazer um governo marcante, basta aprovar as reformas tributária e política. Basta rever a concentração de patrimônio e fortalecer as agencias de regulação. Basta fazer uma política de austeridade econômica com defesa contra crescimento de inflação e desemprego.

Quando o fenômeno Marina despontou, a avalanche de empolgação obscureceu a dúvida sobre a aplicabilidade da sua proposta de nova política. Não se sabe se é ou não em favor de privatizações, só se sabe que vai rever a partilha do pré-sal. Não é claro se vai manter, reduzir ou ampliar os programas sociais do governo. Sequer esta clara a sua política sobre sustentabilidade. Ao que dizem suas ultimas declarações ela abandonou essa bandeira em favor do voto do agronegócio. Também acenou para políticas de tolerância com leis de igualdade para LGBT, mas as abandonou em favor dos votos evangélicos. Até o presente momento, suas deliberações são unicamente em favor do mercado e do voto de grupos majoritários. Se tomarmos como referencia a única decisão concreta que sugere Marina – a autonomia do Banco Central – seu governo pode abandonar as políticas sociais e de geração de emprego e renda aos mais pobres em favor de crescimento econômico com concentração de renda. O que é não só uma política velha, mas também retrógrada.

Marina mira o voto dos mais pobres sabendo que suas propostas fatalmente vão traí-los. Se cada vez que Marina apontar para um lado eleitoral, atirar em outro lado da sociedade, sua candidatura não pode ser levada à sério. Porque não apresenta a consistência de quem fala claro ao eleitor.

Enfim, no fundo, a diferença entre a infantilização da política expressa por Tiriricas e por Marinas é que uns nos levam para a comédia, e a outra nos leva para a tragédia. 

Luís Fernando Vitagliano é cientista político e professor universitário.