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sábado, 10 de dezembro de 2011

em breve, em Cuba!!

Quando eu disse à minha Mãe que eu tinha passagens compradas para Cuba sua reação não foi das mais amigáveis:
- Mas Cuba é uma ditadura!!
- E daí?
A velhinha tem pouca educação formal, mas tem muitas leituras e é fuçada. Não desistiu fácil do argumento...
- E daí que eles não têm liberdade, não podem fazer o que querem, falar o que querem...
- Você tem liberdade?
- Eu tenho...
- Então pode comprar uma passagem daqui pro Nordeste amanhã e tirar uns diazinhos de férias?
- Não posso porque não tenho dinheiro... O semblante já havia mudado na resposta, de tom inquisidor ela acusara o golpe. Percebeu rápido que falar sobre liberdade não é tão simples.
- Pois é, lá todos tem as mesmas condições econômicas embora politicamente o governo imponha restrições. Vou conhecer Cuba justamente porque é diferente do Brasil...

O diálogo terminou com um prestatenção típico de mãe:
- Vê se toma cuidado. Do jeito que você é bocudo, bem capaz de te prenderem lá. Vai ficar falando mal do governo...
- Uaiii. Se me prenderem, o máximo que vão me fazer é mandar de volta. Mas, isso já vou fazer por minha conta mesmo.

E a convera não se prolongou. Tudo bem que preguei uma peça básica de Ciência Política em minha mãe, mas isso não se conta. Apresentei a ela um velho dilema a respeito das vontades e liberdades políticas: a relação entre LIBERDADE de ação e PODER para agir. Não adianta nada ter liberdade para agir e não ter condições sociais para isso. São o que alguns politicólogos de plantão chamam de liberdade formal versus liberdade real. Objetivamente a ideia de liberdade sempre deve se restringir quando aplicável à prática social. Ser completamente livre só mesmo Robinson Crusoé que estava sozinho na ilha. Sociedades sempre impõem restrições às liberdades individuais. A pergunta é: qual tipo de restrição enquanto comunidade estamos dispostos a nos submeter. Minha artimanha foi usar a restrição econômica do sistema capitalista periférico brasileiro como contraponto às restrições políticas do regime cubano.

Depois foi a vez de conversar com um amigo gay sobre Cuba. Em resposta ao perguntar o que eu iria fazer nas férias, contei da minha viagem ao Caribe. Ele teve um leve toque de indignação, nada além de um susto, mas o suficiente para eu lembrar que Cuba não é uma rota privilegiada da diversidade sexual. O socialismo marxista dos anos 1950 era bastante concentrado na contradição trabalho/capital, mas pouco atento às outras contradições sociais como gênero, cor, etnia etc. São várias as histórias de repressão do regime em relação aos gays. "Morango e Chocolate" é um filme clássico sobre o escritor que se envolve com um estudante e o caso é condenado pela sociedade cubana.

A esse respeito, me informou uma amiga jornalista que Mariela Castro, filha de Raul, tem sido uma militante importante para rever esta realidade daquele país. Defende, por exemplo, o direito ao sistema de saúde cubano melhorar as condições das operações de mudança de sexo na assistência médica cubana. Essas operações já existem e são gratuitas em Cuba, mas são extremamente burocráticas.

O fato é que este assunto é pouco tratado por nós brasileiros. Mesmo sobre a situação doméstica, quiçá de lá. A respeito das demandas GLBTS Cuba tem avançado.  Mas, fica marcada a propaganda de um regime homofóbico que durante décadas condenou os gays. Isso já deu pano pra manga, é só lembrarmos do escritor cubano Reynaldo Arenas, que escreveu “Antes que Anoiteça”, o dissidente gay que fala das dificuldades que a ilha apresenta...

Sobre outros aspectos, porêm, a ilha ainda é emblemática. O regime conta com inúmeros impasses e infortuitos. Duas moedas, uma para nativos outra para turistas. Uma relação dificil com o embargo estadunidense e os dissidentes de Miami. Enfim, assunto sobre Cuba nunca se falta.

Vários amigos, conhecidos, próximos e distantes têm histórias sobre a Cuba. A ilha tem muita mística, exagero e paixão que a envolve. Realidade mesmo, diante de tantas impressões, é dificil uma consensual. A meu respeito o que posso dizer é que minha decisão de conhecer a ilha veio depois que ganhei um processo contra meu banco por conta de uma lambança que fizeram ao resolver o problema de clonagem do meu cartão de crédito. Resolvi que o dinheiro do sistema financeiro brasileiro ia ser todo destinado à distribuição de renda e entregue a Cuba - que, se já não tem mais aquele ideal marxista revolucionário, pelo menos funciona ainda como um contraponto ao modismo de classe média do restante da América Latina... Caribe por Caribe, que me perdoem os turistas, mas não vou pra Cancun.

... então: Hasta breve compañeros!!!

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Aspectos contraditórios da Justiça: o Direito e o Advogado

Sempre digo aos meus alunos que bom senso é aquilo que todo mundo acha que tem, mas é exceção no mundo, só tem quem duvida que tenha. Assim acontece com as leis e as regras: se todos as cumprissem, não haveria necessidade de condenações ou punição. As regras só existem porque permitem exceções. As regras, por mais positivas que tentam ser – positivas no sentido de expressar as claramente as formas de organização de uma sociedade – não são capazes de expressar toda a complexidade de um sistema social.

Regras e leis formam a expressão dos costumes em comum, as formas de organização. O direito nas sociedades modernas é a esfera que expressa o compendio da forma de organizar a sociedade e trata dos movimentos que impedem que a ordem social seja quebrada.

Direito, não é apenas a forma normativa dos costumes, vai além dos procedimentos e possibilidades de punição e absolvição, trata dos procedimentos e das condutas da justiça dos modos pelos quais as pessoas devem recorrer ao moral coletivo para adequar seu caso a justiça desta sociedade.

Vejamos o exemplo clássico kantiano. Se um homem tem seus filhos passando fome, tem o direito de roubar? Este homem tem o dever direito de roubar. Só por este exemplo, podemos perceber que há mais possibilidades de interpretação que a simples dicotomia, não roubar ou se roubar vai preso por tanto tempo. Muitos casos de violação de conduta podem ser justificados, o direito existe para isso: para prever justamente que o código social é insuficiente para proporcionar justiça a todos os casos.

Supostamente a existência dessas possibilidades de questionamento da regras de sociabilidade devem se dar devido ao grande e complexo número de exceções que merecem justiça. Mas, a presença dessas interpretações no direito tem dado aos advogados a licença para tratarem criminosos como inocentes.

Diante da justiça, nas sociedades onde a justiça foi profissionalizada, todos os acusados têm direito a um representante legal. Todos temos direito a defendermo-nos, a apelar para que cada caso seja avaliado segundo sua incidência única e a ordem de fatores o que provocaram. Isso faz parte da justiça, o papel de ser defender perante um júri e por ele ser julgado.

Parte importante dos problemas com a justiça começa quando advogados observando a conduta das exceções passam a criar factóides para que seus clientes possam contar com exceções das quais não são merecedores. Bons advogados passam a ser avaliados pelo seu índice de absolvição dos seus clientes, pela capacidade em alcançar resultados e, portanto, pela sua astúcia em ludibriar, enganar, subverter casos e condições de julgamentos.

Neste mundo moderno, justiça tornou-se parte de um processo paradoxal onde inocente e culpado são aspecto contraditório do mesmo movimento. Não é raro encontrar culpados inocentados e inocentes condenados. Se essa atrocidade torna-se normal, ainda que vençam os advogados, fracassa a justiça.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Materialismo na construção da subjetividade

Andando com meu tio na rua, percebi que ele desviou o caminho, desceu pelo meio fio e caminhou ao lado da sarjeta alguns passos, até voltar à calçada. Olhei para o chão e o no trajeto havia um fio de água, pequeno de uma loja que acabava de lavar seu chão. Nos pés do meu acompanhante havia um sapato praticamente novo, com um solado de mais de 4cm. Interroguei meu tio a respeito do ocorrido. Estranho alguém desviar o caminho por um fio de água que sequer faria umidecer um solado. A resposta foi categórica: “costume!”.
Pus-me a pensar por que uma pessoa se acostumaria a desviar-se da água? Conheço relativamente aquela história pessoal para poder dizer que se existe um sapato novo ali, nem sempre foi assim. Se a pessoa tem um sapato surrado durante muito tempo, sabe do risco da infiltração da água no solado. Qualquer fio de água pode molhar o solado e a meia. E quando se molha a meia, é o fim porque o pé fica úmido o dia todo. Às vezes é inevitável: quem não teve os pés molhados por uma chuva e passou por uma meia úmida o dia todo? A diferença é que quando nosso orçamento é curto, um sapato é o normal e se usa até surrar a sola. Quando o transporte coletivo é a moda, o solado sofre com os deslocamentos e o desgaste é inevitável e cedo ou tarde rola um buraquinho aqui um uma descosturada ali...
Se a vida toda você andou de sapato velho é normal que inconscientemente você crie o habito de lidar com a possibilidade dele não estar em boas condições, e niguém fica se policiando pra saber o que pode fazer, se já está usando o sapato novo ou ainda mantem velhos habitos. Sabendo com conhecimento de causa e tendo vivido várias experiencias de meias molhadas pelas infiltrações, mais que isso, consciente de que um dia todo pode tornar-se incômodo por simples poças dágua, meu tio nem pensou nas possibilidades presentes, simplesmente mudou seu caminho. Ou, como ele mesmo disse, agiu por habito.
Aquilo que foi definido por ele como costume, na verdade é um modo de proceder que depende da sua formação cultural e principalmente, no caso, da sua condição social. É um simples exemplo, mas me fez recorrer à sociologia para entendê-lo e me colocou ao lado daqueles que entendem a formação da subjetividade se dá a partir da constituição da materialidade social. Ou seja, antes de você ser um ser provido de razão oriunda de uma condição humana de consciência, você é um ser provido de sensibilidade num mundo concreto e é a partir dessa concretude que se constrói a consciência - para nós materialistas os homens não tomam consciencia aprioristica, somos seres sociais que adquirimos consciencia a partir do processo sensível.
A diferença entre os materialistas e idealistas (a diferença básica, pelo menos) é que enquanto os idealistas supõe que a consciência subjetiva do homem é inerente à sua existência mundana, os materialistas afirmam que é a sensibilidade em relação ao mundo que forma a consciência e os limites da consciência do ser social. Por isso, para os materialistas é importante a questão da igualdade para permitir que todos possamos desenvolver nosso potencial emancipatório como seres humanos.
Neste contexto é que utilizo o exemplo do meu tio. Foi sua necessidade social e seu constante aprendizado a respeito dos limites que se permitia é que fez com que ele automaticamente mudasse seu rumo diante da água. Assim que vejo inúmeros pobres baixando a cabeça quando alguém fala mais alto, assim entendo a classe trabalhadora que pouco paga por serviços e espera sempre que, entre poder fazer ou pagar, tentar por si própria fazer, assim vejo também que a classe média sempre quer conservar seus benefícios e aproximar-se de uma aristocracia que as distingue dos pobres e automaticamente se indigna quando percebe que divide o mesmo espaço com a ralé. Através da hipótese materialista construímos interpretações e classificações aproximam nossas gerações e posições sociais constituídas historicamente de um modus operandi característico de determinadas castas. Sociologicamente posso até entender como o mundo se divide. Socialmente, é bem provável que eu não concorde com essas disfunções que a sociedade causa na nossa subjetividade

(Imagine quais as possibilidades de consciência proporcionado pelo domínio que o homem historicamente construiu quando sua intervenção na natureza traduziu-se em tecnologia)

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Atividade aos alunos de SOCIOLOGIA...

Peço mais uma vez licença aos leitores deste blog. Mas, preciso de espaço para colocar on-line algumas informações e endereços eletrônicos que ajudariam os alunos de sociologia a navegar pela internet de modo a encontrar rapidamente alguns documentos que vão servir de base para a atividade de hoje em sala. (Os alunos que se interessarem por aprofundar o conhecimento sobre o assunto vão encontra um mapa rápido das fontes de informação que ajudaram a preparar a atividade de hoje)...

- Prometo aos leitores do blog que quando o tempo e paciência me permitirem, vou preparar um blog próprio ou uma página em específico para os alunos dos curso -

Vamos à ATIVIDADE

Proposta de LEITURA:

1. MARX, "O TRABALHO ALIENADO" em Manuscritos Econômico-Filosóficos
2. MARX, Capitulo XXIV de: O CAPITAL "A Acumulação Primitiva" (cuidado, tradução em portugues de Portugal)
3. SWIFT, Jonathan. "Modesta Proposta", 1749.

Além disso foram citadas:
4. Reportagem da BBC sobre a fome no mundo em 2009
5. Relatório da FAO (Organização Mundial da Agricultura - sigla em inglês) sobre o diagnóstico atual da fome: “O Estado Mundial da Agricultura e da Alimentação”, 2009.

Com base nos textos citados, responder:

FOME no sentido técnico pode ter duas definições: 1) Clássica: falta de alimentos; 2) Sofisticada: falta de nutrientes que permitam o desenvolvimento das funções biológicas. Ou seja, mesmo que em alguns casos os alimentos existam, a ausência de uma dieta minimamente balanceada não permite que, principalmente crianças idade de desenvolvimento, consigam suprir suas necessidades alimentares.

1) Discuta, se produzimos mais alimentos que a quantidade razoável de nutrientes por pessoas no mundo, então porque há tanta “FOME”?

2) Associe a discussão aos textos de MARX: Cap. XXIV d’O CAPITAL: “A acumulação primitiva” e; dos Manuscritos Econômico-filosóficos: “O Trabalho Alienado”. Como o Marxismo responde à questão da produção e distribuição dos meios sociais de provento da vida humana?
O trabalho parte da "Modesta Proposta" de Swift, que ironicamente defende: se não cuidamos das crianças pobres, porque não utiliza-las como alimentos já que, com parte da renda, as próprias famílias pobres provedoras dos rebentos podem se sustentar? Swift, autor de clássicos como "As viagens de Gulliver", é contemporâneo de MALTHUS (breve ensaio para quem quiser se atualizar), autor da famosa tese sobre o crescimento populacional versus o crescimento dos alimentos. Enquanto a população cresce em progressão geométrica, a produção de alimentos cresce em progressão aritimética - o que levaria cada vez mais às restrições alimentares. A tecnologia e o desenvolvimento alimentar provaram que MALTHUS estava ERRADO e SWIFT, mostrando que a miséria não é uma questão de trabalho ou racionalidade econômica estava CERTO. O desafio é usar o MARXISMO para mostrar "POR QUE?".

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

As Regras do Método Sociológico

Mais uma vez peço licença aos leitores deste blog, mas preciso alugá-lo por uns dias para meus alunos de Sociologia. O fato é que os alunos recém ingressantes ainda não tem representante de turma ou e-mail coletivo, ainda não se organizaram para fazer a informação circular por todos. E, preciso enviá-los o arquivo com o livro com o mesmo título desta postagem. Abaixo vou colocar o endereço eletrônico onde se encontram "As Regras do método sociológico" para que salvem o arquivo e façam a leitura para o dia 11 de fevereiro. Como são muitos alunos, seria inviável enviar um por um o texto ou ficar montando lista...
Os alunos podem encontrar esse livro na biblioteca também. Ou nessas pequenas edições econômicas que vendem em todos os lugares, inclusive bancas de jornais.


O endereço para baixar o livro está no Google Docs é só clicar aqui que vai direto:


AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO DE EMILE DURKHEIM


Além deste livro, mais dois livros de Durkheim serão trabalhados na disciplina:
  • A divisão do trabalho social (capítulos à definir)
  • O Suicídio (capítulos à definir)

No caso das regras do método, a leitura integral é obrigatória. Nos outros dois casos, apenas os capítulos selecionados serão cobrados.


Como leitura de apoio para mensurar melhor a importância de Durkheim recomendo que os alunos consultem o texto de Renato Ortiz, publicado na Revista Brasileira de Ciências Sociais (RBCS) numero 11: "Durkheim, arquiteto e herói fundador"
Resumo: Este artigo analisa a emergência da sociologia na França. Através do itinerário de Durkheim, procura mostrar o processo de constituição da sociologia como disciplina autônoma. A análise procura explorar a relação entre a epistemologia cias ciências sociais e o momento histórico pelo qual passa a sociedade francesa. Uma atenção particular é dada à constituição da moderna universidade francesa e aos concorrentes de Durkheim (como Gabriel Tarde) na produção do conhecimento sociológico.

sábado, 5 de junho de 2010

Tendências sociológicas da MODA!

“Cocô Chanel” e “O diabo veste Prada” são apenas filmes, mas este blogueiro vai amplificar suas dimensões talvez em dimensões lógicas para além das pretensões dos próprios produtores. São casos passíveis de comparação, mas também podem compor a lista de inúmeros exemplos em que se demonstram uma diferença característica entre franceses e norte-americanos: o pragmatismo nos EUA e o engajamento na França. Enquanto os franceses revolucionam comportamentos através da moda, os estudo-unidenses ganham muito dinheiro através da moda.
Na temática do mundo da moda há diferenças interessantíssimas entre os filmes. A começar pelo centro da trama. O diabo veste Prada fala de relações profissionais e de poder. Cocô Chanel fala de preconceitos e atitudes. Um é ambientado na capital da moda do final do século XX, inicio do século XXI; o outro fala da capital da moda no inicio do século XIX, inicio do XX.

Cocô Chanel propôs roupas elegantes à mulheres, inseriu a calça na moda feminina. Propôs atitude à mulheres. Mais que isso, deslocou o lugar das mulheres e propôs um novo referencial para expressar a relação da mulher com a sociedade através de roupas básicas, porém elegantes. O que seria da moda feminina sem o pretinho básico? A revista Vogue, ao contrário, é basicamente um veículo que dita tendências, fala de moda para vender. Constrói e desconstrói gostos. Sua editora apresentada no filme, Miranda Priestly era o tipo ideal da profissional competente, viciada em trabalho e carrasca com seus subordinados.

Moda pode ser tendência ou pode ser atitude.

Moda tendência é aquele que se deve acompanhar uma indústria que se comunica de modo bastante particular e só aqueles que estão sempre atualizados e acompanhando como se manifestam a partir das referencias do campo. A moda não necessariamente evolui por esse processo, mas certamente se sofistica ou aprimora seus processos. Já a moda atitude é aquela inovadora ou revolucionária. Que não muda apenas as cores, comprimentos, composições e arranjos. Moda atitude é aquela que impõe ou é resultado de novo comportamento. Imagine o que foi para as mulheres a possibilidade de ser vestir com calças e camisetas, sem corpetes, vestidos armados, meias, citas etc?

O fato em que quero me concentrar, todavia, é que em qualquer um dos casos, moda pode tornar-se algo elitizado, para poucos; enquanto os mortais vivem das gafes. Em primeiro lugar porque estar na moda (excluso os movimentos esporádicos e impactantes que têm na moda uma identidade específica) ou vestir-se elegantemente custa caro - detona certo status que segrega. Por que em se tratando de tendência a moda se renova dia a dia. Independe das possibilidades de combinações, as roupas e acessórios custam caro e se fazem ainda mais caras quando são originárias das revistas. A industria da moda formou um circuito de consumidores que reproduzem as tendências, num processo imitativo (e/ou pseudo-criativo) que faz com que as pessoas que acompanham a propostas dos criadores e formam um circulo de adeptos que propagam os estilos.

Entretanto, também é preciso dizer que, a moda de tempos em tempos reinventa comportamento. Calça jeans, Mini-saia, biquíni são só alguns dos inúmeros exemplos. Moda também reflete movimentos mais complexos: os hippies, yupes ou grumges. Na política, a moda pode tornar-se importante também: os movimentos autocratas exigem uniformidade na vestimenta – e essa composição monolítica da moda tem um significado político importante. O padrão, os estilos ou as tendências ditam comportamento ou são resultados de movimentos.

No sentido moderno, na moda torna-se sobressalente sua importância econômica. Moda é hoje uma industria e este campo é antes de mais nada um negócio. E passou a ser uma necessidade básica de qualquer plebeu estar bem vestido. No sentido sociológico, acompanhar a moda ou não tem significados mais fortes que a vontade de se adequar. No geral, mesmo que no dia a dia as pessoas podem ter estilos, prevalece um jeito discreto ou pouco chamativo determinado pela tendência e seguindo as necessidades de trabalho das pessoas. E, no dia a dia não é o bom ou mau gosto que dita qual roupa vestimos, mas o quanto estamos dispostos a gastar (tempo ou dinheiro) nisto. As pessoas que querem explorar mais a modas, as tendências ou preservar sua personalidade ao vestir-se tem que gasta mais recursos e muito mais tempo que as pessoas que querem simplesmente estar apresentável sem que necessariamente a vestimenta seja o seu cartão de visitas.

Se você tem oito ou dez pares de sapato, a facilidade para compor roupas é alta. Mas, se você tem apenas um ou dois as escolhas se restringem. Neste caso, as pessoas partem do usual e só chegam ao sofisticado investindo recursos próprios. Parte-se dos tipos que podem ser usados em várias ocasiões e em distintos eventos, portanto, os tipos comuns, básicos, para os tipos sofisticados. Onde o uso é raro. Algumas mun Mesmo assim, a indústria da moda é poderosíssima na construção do gosto e consumo de toda a estrutura de funcionamento deste campo.

Imagine um homem que tem pouco dinheiro, só pode comprar um par de sapatos. Não vai inventar um caramelo (ou não deveria). A cor caramelo restringe o sapato a poucas possibilidades de combinação. Mas, sapato preto combina com qualquer roupa. Ou uma mulher que sonha em comprar um scarpin salmão. Vai precisar ter outro sapato, ou outros. Mas, economicamente é preciso elaborar bem as combinações. Além disso, acompanhar as tendências custa caro.

Se uma pessoa é restrita pela economia, mas tem desejos ou é bombardeada por uma tendência qualquer, seu guarda-roupas passa a ser uma colcha de retalhos da moda: é normal querer ter, mas não poder gastar tanto para sustentar todos os detalhes . Então, a questão do mau gosto tem alguma possibilidade de originar-se da contradição entre querer seguir a tendência da moda e a incapacidade de conseguir atingir todos os custos. Além disso, as roupas confeccionadas para eventos em específicos têm necessariamente determinadas regras que não devem ser quebradas. Assim, compor uma bermuda qualquer com uma camisa pode ser caótico.

As variações são enormes. Desde a personalidade discreta ao exibicionismo, passando pelos conservadores e progressistas, a moda atinge a todos - independente do desejo de participar. O mais normal é que no dia a dia as pessoas optam por produtos básicos. Mas, o desejo por compor ou participar de certo circuito que às vezes é restringido se manifesta dos modos mais diversos. Isso não impede que o comportamento dite tendências, ou que grupos excluídos do circuito façam moda em algum momento. Porém, o fato é que hoje (se as revistas monopolizam as regras da moda, diferentemente da espontaneidade que fazia a moda do passado), uma Miranda Priestly com seu poder de convencimento e seu domínio do circuito industrial pode sufocar até mesmo o brilhantismo de uma Cocô Chanel.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Quando a sociologia explica a racionalidade do técnico da seleção brasileira

Max Weber, sociólogo alemão do inicio do século XX é um dos nomes mais fortes da sociologia. Sua contribuição atinge fronteiras das mais amplas, desde estudos das diversas religiões do mundo até os dilemas da escolha racional nas relações internacionais. Weber propôs um método sociológico baseado nos estudos que buscavam compreender o sentido da ação racional.
Podemos nos basear em Weber para tentar entender qual o sentido racional da convocação de Dunga. Vários instrumentos e textos propostos pelo sociólogo podem nos fazer entender isso.

Em primeiro lugar. O diagnóstico geral (inclusive já divulgado em entrevistas de Ricardo Teixeira em vários jornais) mostra que a seleção de 2006 perdeu a Copa do Mundo pelas baladas. A seleção era a melhor, entrosada, tinha os mais importantes atacantes em bom nível técnico, mas as festas e euforias, a paparicação da imprensa, as vaidades, todo o extra-campo destruiu a possibilidade do país conquistas sua sexta Copa do Mundo. Os atacantes rastejavam em campo contra a França e o magro 1x0 da derrota só escancarou a irresponsabilidade dos jogadores e a incapacidade de organização da comissão técnica.

Baseados nesse diagnósticos os dirigentes e comissão técnica afastaram os jogares vaidosos e irresponsáveis e tentam desde então organizar uma seleção com o compromisso do grupo e com a conquista. Neste cenário entra a figura de Kaká. Um jogador que age segundo a racionalidade protestante. Kaká é um evangélico declarado e segue os ditames cristãos. Não gosta de noitadas, é disciplinado, tenta se afastar das badalações e tem compromisso profissional declarado. Kaká tornou-se o pilar da seleção entre outras coisas pelo seu mérito de ser considerado um dos melhores jogadores do mundo, mas principalmente pelo seu compromisso evangélico com o profissionalismo. E o grupo em torno de Dunga pactuou a racionalidade de Kaká à frente da Seleção.

Alguém pode dizer: mas temos Robinho, um irresponsável baladeiro nato. Primeiro que um único jogador, dois ou três exceções de menor expressão não ditam as regras, as seguem. Acabam assumindo a regra geral ou são afastados. Vejam o que aconteceu com Adriano. É o melhor exemplo. Teve uma vida desregrada no Rio, brigou, reatou com a namorada, apareceu nos tablóides, foi acusado e defendido pelos comentaristas, ou seja, deu bandeira demais extra-campo e poderia influenciar negativamente os outros.

Concordemos com a convocação ou não – porque sinceramente eu to achando aquilo ali um curso pra coroinha – a convocação segue a racionalidade da formação de um grupo que se une pelo compromisso. Este compromisso, entre outras coisas é afastar tudo o que pode desvirtuá-lo de alcançá-lo. Nada mais próximo disso do que a racionalidade religiosa cristã: tudo que me afasta do compromisso de atingir o reino dos céus é pecado. Para atingir o céu, ou para merecê-lo, eu preciso abrir mão de muitas tentações e seguir no caminho do compromisso e da abnegação. Muitos dos jogadores que assumiram o profissionalismo depois de se perderem em mulheres, jogo, drogas, noitadas e com isso perderam desempenho e passaram maus bocados nos clubes; depois conseguiram voltar a atuar bem e ganhar espaço com a adesão à divina providência.

Não podemos (nem devemos) fazer juízo de valor diante das escolhas dos indivíduos. Àqueles que querem se entregar a Deus devemos abrir espaço e desejar boa sorte. O problema começa quando essa ótica é o filtro das opções para assumir um grupo futebolistico, que não tem nda de religioso.

Ronaldinho Gaucho sem dúvidas. Ganso certamente. E Neymar em menor medida. Estes tem amplos méritos de estar no grupo da seleção. O primeiro por motivos óbvios não é convocado: esteve tocando o puteiro no mundial de 2006. É um desvirtuado declarado. Os segundo e terceiro consideram que não foram testados. Mas, evidentemente que poderiam ter sido testados nos amistosos há dois ou três meses. Não foram testados; não porque não houve tempo, mas porque uma decisão foi tomada para não testá-los. Porém, mostraram recentemente o quão são comprometidos com a vitória e a postura de Ganso na final do paulista mostrou toda sua maturidade. Nunca enfrentou um zagueiro europeu? Nada que dois ou três treinos levando trombadas de Lucio e Thiago Silva que não os ensinem a como se portar.

Suponho que só há uma justificativa para a não convocação de Ronaldinho, Ganso e Neymar: não compartilha (o primeiro certamente) e não foram testadas suas reações (os outros) diante da ética evangélica desenvolvida por este grupo de jogadores da seleção. Se este é o motivo da não convocação; as idéias do técnico da seleção estão fora do lugar. Apostar que Kaká pode ser o pastor que vai conduzir as ovelhas ao caminho correto e este cuidado vai levá-los ao paraíso é uma idéia plausível. O Brasil entra na competição como favorito – não há como discordar disso. Porém, não podemos dizer que vai explorar seu melhor futebol com esta seleção. Porque a opção não foi pelo melhor futebol, foi pelo grupo mais coeso. Então: como posso supor que o jovem, inexperiente e moleque, Ganso merece menos que Julio Batista estar na seleção? Não faz o menor sentido.

Enfim: quanto deve custar a vitória tendo em vista a justiça? E o que eu vou dizer quando penso que o futebol mágico de Ronaldinho e Ganso poderiam nos deslumbrar a todos à frente das TVs de plasma (nova vetede tecnológica desta copa) foi-me furtada por uma ética religiosa? E alguém pode, por favor, dizer ao pastor Kaká que ele cometeu um pecado quando injustamente fechou o grupo e não reconheceu os méritos dos meninos da vila ou as qualidades sua antítese futebolística (e social) Ronaldinho...

domingo, 10 de janeiro de 2010

Da faculdade do julgamento

Nas mais antiquadas discussões das ciências sociais questionam-se qual faculdade torna o homem um ser único na terra. O que torna-nos humano e nos diferenciam dos animais? Muitas são as explicações a esse respeito. Para Marcel Mauss, a dádiva era uma forma de sociabilidade que nos distinguia dos animais. Em outros, como Claude Levi-Strauss (fundador do estruturalismo), a origem da sociabilidade está na negação do incesto. O fato é que nas ciências sociais já não se discute mais que condição genética nos distingue dos outros animais, como Darwin procurava as características que selecionavam as espécies.

E para evitar esse debate infindável, definamos arbitrariamente que uma das faculdades mais importantes do homem, que o destingue de qualquer animal na terra, é sua capacidade de julgar. E esta faculdade está intrinsecamente ligada a nossa moral. Se temos moral temos distinções dentro de nossa sociabilidade, se temos regras sociais instituímos o certo e o errado e nossas dicotomias tornam-se fundamentais dentro das nossas categorias de análise. Bom e mal, belo e feio, verdadeiro e falso, digno e indigno, leal e desleal, fiel e infiel, fidelidade e traição, e, finalmente, justo e injusto, distinguimos segundo categorias básicas e dicotômicas. Funcional? Sem dúvidas, mas só quando não há exageros.

Nossas categorias de pensamento servem ao nosso juízo moral. E nossa moral sem dúvidas serve à preservação da espécie. Nossas condições básicas de sobrevivência vão de alimentar-se, abrigar-ser e vestir-se. Os demais avanços no campo tecnológico ou cultural geram apenas excedentes. Evidentemente vivemos mais e confortavelmente melhor, se mantemos um nível de coesão ampliado. Mas, a vida em sociedade torna-se mais complexa e exige outras regras sociais que vão além, e muito além, da nossa condição pré-civilizatória. A moral do homem civilizado é maior que a moral do primata. As morais aumentam os pudores.

Agora chegamos ao ponto em que gostaria de destacar nesta postagem. A nossa faculdade do julgamento pode ter nascido com nossa própria condição humana. Não nos reconhecemos como homens sem incorporar ao nosso comportamento um mínimo de moral – um mínimo de distinção entre o certo e o errado. Talvez nos primórdios o certo e o errado garantiam a preservação do grupo, mas hoje, certo e errado formam uma teia de comportamento social que servem aos mais diversos interesses, desde o altruísmo da espécie até o egoísmo de determinadas pessoas.

Nossas sociedades desenvolveram em seus membros uma exagerada capacidade de julgar. A todo o momento estávamos reconhecendo condutas, avaliando e julgando segundo nossos critérios de comportamento. Em geral realizamos vários impropérios, tiramos conclusões idiotas ou cometemos gafes ao avaliarmos o comportamento do semelhante e taxarmos indiscriminadamente segundo nossas expectativas. Julgamos e somos julgados a cada instante. E embora isso não tenha reflexo legal, sempre acaba por ter algum tipo de reflexo quando se tratam de grupos sociais. Julgamos nossos semelhantes, nossos amigos, nossos companheiros e companheiras, julgamos nossos familiares. Sempre segundo critérios que não são neutros, mas egoísticos.

Quando fundada a justiça, a preocupação dos grandes líderes era em relação a sua imparcialidade. Não matar. Não roubar. Não levantar falso testemunho. São regras básicas de conduta pré-cristã. Ajudaram a preservar os grupos sociais. São regras necessárias ao mínimo de convivência pacífica e os que as violavam recebiam forte punição social. Mas, outras regras incorporadas a essas foram aos poucos sendo utilizadas para garantir um mundo desigual, às vezes justo, às vezes injusto, mas certamente sectário. Garantir a propriedade privada, baseada em leis do trabalho e do dinheiro, certamente induz ao compromisso com a produção, mas com certeza é sectária.

Julgar o próximo significa dizer a ele não o que ele deve fazer, mas como ele deve se comportar segundo nossa moral própria e não segundo a liberdade que lhe é concedida. Quando existem regras escritas, as pessoas que passam a ser policiadas pelas instituições da sua sociabilidade. Mas, para além das instituições sociais legitimas existem as instituições reconhecidas entre os grupos: religião, família, negócios, grupos de interesse, etc. Segundo os critérios de cada grupo social há um comportamento esperado e um comportamento permitido. Algumas vezes permitimos certos comportamentos, mas não esperamos que ele seja executado. No meu time de futebol é permitida a falta como em qualquer jogo normal. Mas, entre meus amigos da pelada, uma falta mais dura é taxada como desleal e digna de repreensão do grupo. Um católico às vezes julga mal um protestante, e vice e versa...

Entre as figuras mais interessantes que conheci na vida, as que tinham menos preocupação em julgar e mais preocupação em entender, chamaram minha atenção como pessoas diferenciadas e de certa forma com um nível sociabilidade acima da normal. As vezes consideramos essas pessoas como de bom coração, mas não é só isso. Essas pessoas realmente tem uma capacidade impar para não oprimir o próximo e permitir que cada um siga seu rumos segundo seu próprio juízo. Parece pouco, mas é basicamente uma forma de não forçar pessoas a seguirem seu modo de vida. Independente do tipo de formação que essas pessoas tiveram, sempre me foi admirável perceber que não julgar as torna diferenciadas.

Interessante como a faculdade do julgamento não se expressa no cotidiano como se expressa nossa mais nobre ideal de instituição da justiça – segundo critérios positivos, neutros que se reservam à preservação da moral coletiva e ao desenvolvimento da sociabilidade. Nos critérios individuais de julgamento impera o nosso ponto de vista egoísta segundo uma moral individualista e que obedece nossos mais mesquinhos desejos. Quando julgamos nossos pares inevitavelmente julgamos segundo nossos desejos, ambições e de acordo com nossa posição dentro do processo. Por isso a justiça propõe-se a afastar do processo os interessados diretos. Mas, por isso também é tão difícil ser justo com nossos pares. As pessoas que se abstém do comportamento de julgar conseguem manter-se afastados das injustiças que cotidianamente cometemos, porque não há nada mais cruel que fazer com que uma pessoa, a favor ou contra sua vontade, se sinta coagido a agir segundo critérios que outro as impõem para que apenas obedeça a necessidade egoísta de não tolerar que outras formas de comportar-se legitimem-se.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Crepusculo, Lua Nova, esteriótipos, arquétipos e gerações de adolescentes...

Assisti Crepúsculo. E antes do julgamento geral pré-estabelecido devo dizer que há certa altura do campeonato determinados movimentos que adquirem importância quantitativa merecem ser analisados com atenção. Se percebemos logo que não há valor artístico em algumas produções, isso não significa que aquilo seja totalmente desprovido de importância social. Crepúsculo é um sucesso de público e renda. Em livros e cinema. Merece atenção tanto quanto Harry Potter.
Além disso, quem quer conversar com os adolescentes (ou não tão adolescentes) de hoje, precisa minimamente entrar nesse mundo nebuloso de literatura fantástica misturada com cinema mega-produção. Nada contra Harry Potter, nunca li os livros, mas a produção cinematográfica é muito bem arquitetada, sem gafes e exemplar em atuação. Não faz parte do meu universo interpretativo, mas pelo menos como produção da indústria do cinema é preciso reconhecer o seu preociosismo. Mas, não entendo como Crepúsculo, com seu sucesso garantido pela já audiência alta dos livros, pode ter sido entregue a amadoras, produção e atuação: os atores são péssimos, a produção pobre, e pelo que entendi, nem o roteiro conseguiu explorar o livro tão bem assim.
Pessoalmente eu gostaria defender que considero exagerada parte da critica que cai matando nos clichês do filme. Existem clichês? Todos, inúmeros... Mas, é parte da obra. Foi feito neste intuito. É praticamente exigido pelo estilo da produção. Convenhamos: filmes para adolescentes são mesmo repletos de clichês. E, de tempos em tempos, faz parte do processo sociao reinventar os clichês para as gerações futuras.
Toda a geração de adolescentes pede seu “Romeu & Julieta”, e já não estamos mais nos tempos de Shakespeare. Cinema é mais dinâmico que teatro. Quem perto dos seus trinta anos não se lembra do Karatê Kid? A história do garoto que vai pra escola e se apaixona pela menininha bonitinha com o namorado badboy... Sempre essas histórias dividem os 'bonzinhos' e os maus - facil de identificar o herói e o vilão. Sempre há um conflito para disputar a honra de cortejar a dama mais cobiçada. Sempre há algo de disputa entre homens em busca da proteção para a mulher. Faz parte da cultura ocidental desde imemoriáveis tempos. Reinventar, reciclar, resignificar fórmulas que dão certeza de público e renda há séculos também é papel das indústrias cinematográficas. Cada geração se apega a sua característica releitura da clássica história do amor impossível.
Quando coloquei o DVD no aparelho, eu já sabia que ia encontrar este sem número de lugares comuns. Nada de surpresas ou preconceitos, faz parte da nova geração ter sua própria referência de história de amor para discutir. Como também faz sentido para as gerações antigas tentar entender as escolhas dos seus sucessores. Mas, para além dos clichês e da péssima produção, Crepúsculo teve algumas outras coisas que me incomodaram. Só mesmo assim para que eu levantasse do meu comodismo ranzinza e escrevesse algo sobre o tema no blog... e antes que algum ridículo venha criticar minha falta de assunto nos comentários, já deixo claro que estou em férias – o que significa entre outras coisas ocupar-me de questões inúteis. Pena que mantenho o vício de escrever sobre tudo que me incomoda...
Voltando ao tema da postagem, Crepúsculo não é só clichê, histórias batidas de disputas e amores impossíveis que pra qualquer pessoa que já tenha certa idade viu isso ser contado inúmeras outras vezes em bilhões de outros filmes, séries ou livros – mudando apenas certas formas e conteúdos timidamente para que tudo permaneça com ares de grandes inovações. Este o filme teve algo que me incomodou ao colocar vampiros e lobisomens no centro da história. E ao explorar essas criaturas inexistentes, tornou a presença do fantástico prioritário, mas talvez também estabeleceu uma descontinuidade com outras gerações.
Os Vampiros ou Lobisomens antes eram vilões. Mesmo em “Drácula” de Bram Stoker o personagem do Vampiro só ganhava simpatia do público porque lutava pelo amor... e em se tratando do amor há uma máxima de que vale tudo. Ainda sim, havia uma forte contradição na obra: porque se todos torciam para a realização do amor entre Drácula e sua amada Elisabetha, todos sabiam que o Vampiro deveria morrer. O Filme é dirigido por ninguém menos que Francis Ford Copolla e é um espetáculo à parte.
Hoje uma quantidade enorme de séries de TV, livros etc surgiram para explorar o tema Vampiro, Lobisomem – coisa que antes tinha um apelo moderado. Não entendo o movimento, passa-se a fantasiar a realidade com tal grau de absurdo que os vampiros assumiram o papel de guardiões do mundo e zelosos pelos nossos mais nobres sentimentos humanos. O movimento é tão forte quanto internacional entre os adolescentes.
Tenho uma sobrinha que apresenta um gosto cinematográfico quase que em antítese ao meu. Sempre que eu defendo um filme ela torce o nariz. Mas, seu argumento para me contrapor é pertinente: ela defende que se se quer realidade, não precisa de filmes. Para ela os filmes são mesmo para nos projetar a outra realidade, fantasiosa e onde outras formas são possíveis. Existe certa racionalidade no seu argumento. Não preciso nem dizer que ela não é nada fã do cinema francês. Mas, ainda defendo que o cinema pode nos ajudar a enxergar o mundo sob uma óptica diferente, ótica que permite reajustar a visão e chegar onde o realismo nu e cru das nossas posições nunca poderia ir por eles mesmos...
Mas, este é um longo debate... a questão aqui é um pouco mais estreita: qual o limite da liberdade de pensar o irreal que o cinema pode nos proporcionar? E qual o impacto dessa liberdade, dessa possibilidade de sonhar, em uma geração de adolescentes? Sinceramente acredito que não foi Crepúsculo que formou a cabeça dos adolescentes fãs da série. Mas, acredito que não por acaso Crepúsculo, Lua Nova etc. (ou mesmo Harry Potter - que segue o padrão mundo da fantasia, magia... enfim), tornaram-se ícones desta geração. Houve um encaixe entre expectativas de uma geração formada sob características específicas, seus anseios que são típicos de uma fase de formação e as características que o filme pretendeu explorar. Então estou a me perguntar: que tipos de adultos se formarão sob este processo cognitivo... ? Sob que condições a forma de reinventar as lendas do amor impossível encontra-se em criaturas sobrenaturais o encaixe necessário?
Não me entendam mal. Não estou querendo com isso depreciar as gerações futuras. Cada geração tem o direito de eleger seus esteriótipos. Vampiros, andróides, cavaleiros ou gladiadores, tanto faz. Mas, sem dúvidas eleger criaturas irreais como vampiros e lobisomens são escolhas diferentes das gerações pregressas. Escolheram criaturas bastante inusitadas para recontar nossos arquétipos do amor impossível. Desde Romeu e Julieta ou Tristão e Isolda várias formas de reviver o amor impossível puderam ser vistos na literatura, no teatro e no cinema. Isso pode querer dizer alguma coisa sobre as gerações. O quanto? Só o futuro poderá criar esta relação.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Arthur Bispo do Rosário e a Cosmologia do Inconsciente

Em 2000, na bienal do redescobrimento, a exposição que mais me impactou foi a que estava nas “imagens do inconsciente”, de Arthur Bispo do Rosário. Reza a lenda que o jovem marinheiro teve uma visão, subiu no mosteiro São Bento em São Paulo e disse que era um enviado de Deus. Isso lá pelos anos quarenta do século passado. Resultado: foi internado num manicômio e tido como louco.
Passando o resto da vida entre a internação e a liberdade provisória, Bispo reuniu um sem número de quinquilharias e fez daquilo arte.
Podemos olhar essa história por diversas perspectivas. Isso é o que mais me agrada. Se quisermos falar de arte, podemos citar os trabalhos do Bispo, se quisermos falar da história da psiquiatria brasileira, podemos citar seu exemplo, se quisermos falar de concepção de mundo, cosmologia, também podemos falar de Bispo do Rosário.

Bispo é do tempo em que pessoas com problemas psíquicos eram internadas, excluídas ou privadas do convívio social e colocadas nos chamados manicômios. A psiquiatria e as políticas públicas para os doentes psíquicos mudaram desde então. Mas as marcas do processo continuam. Hoje, existe um serviço de atendimento ao doente psiquiátrico, mas os tratamentos são complexos e a estrutura do SUS é pouco equipada para lidar com esse tipo de problema. Embora, longe das grades de um manicômio qualquer doente tem mais condições de vida digna, falta muita estrutura para lidar com esse tipo de problema.
Mas: qual era a “loucura” do Bispo então? Ele se dizia um enviado de Deus para anunciar o fim do mundo. E sua missão? Conseguir acumular o maior número de informações para reconstruir o mundo depois da destruição. Bispo do Rosário dizia que poucos iam sobrar depois do fim do mundo, ele (obvio) e alguns eleitos e que caberia aos remanescentes reconstruir o mundo em que vivemos. Assim ele constrói sua “arte”. Plenamente funcional: era a memória do mundo. Tudo que podia ser resgatado para lembrar o mundo atual era devidamente colecionado e catalogado. A obra mais intensa do Bispo é seu manto, onde ele bordou nomes de mulheres. Sua coleção que visava guardar o nome de todas as mulheres que pudesse para manter a memória do mundo.
A missão de Arthur Bispo do Rosário coloca os doze trabalhos de Hércules no chinelo. Imagine o que é reconstruir a memória desse mundo. Sem estrutura, sem recursos, sem espaço. Essa é a grande arte do Bispo, sua genialidade. Tudo passa a ser passível de memória. Um carrinho de plástico pode ser a memória automobilística. Utensílios domésticos, roupas, quinquilarias, lista de objetos e tudo que seria descartável se tornaram memória do mundo na concepção de Bispo do Rosário. A arte tem dessas coisas, inverte ou subverte o sentido das coisas. Ou revigora a significação dos objetos.
Do ponto de vista da construção do mundo, a visão do Bispo é muito interessante. A exposição me levou a pensar o que fizemos do mundo. Ou o que é o mundo para nós. Somos seres que tornamos natural o artificial. Acostumamo-nos a comer com ferro, a andarmos sobre borracha, a viver sob barro. Apenas transformamos a matéria prima, usamo-nos de estética, mas o mundo é um acumulado de objetos inanimados que adquirem significados. A coleção do bispo e sua cosmogonia me impressionaram; tanto que oito anos depois ainda é nítida a imagem de um artista que queria reconstruir o mundo sob sua miséria e não na sua riqueza.
Todos temos um pouco de Bispo em nossas vidas. As casas são um pouco do que trazemos do mundo para nosso convívio. A impressão do mundo que nos agrada. Ninguém, evidentemente, anda com um manto bordado com uma infinidade de nomes de mulheres ou faz coleções e listas de tudo que encontra pela frente. Mas, é considerado normal pelos nossos padrões que quando gostamos de uma quinquilharia qualquer levamos para casa. São significações que damos ao nosso mundo é um pequeno universo que formamos para nosso sentido – uma foto aqui, um objeto ali, uma decoração acolá. Ao fim, o que nos restará além de memória? Nossa em relação à vida e dos nossos em relação a nós...



(O acervo permanente de Arthur Bispo do Rosário fica exposto no:
MUSEU BISPO DO ROSÁRIO ARTE CONTEMPORÂNEA.
Rio de Janeiro, Estrada Rodrigues Caldas, 3.400 – Jacarepaguá)

terça-feira, 31 de março de 2009

Revolução digital uma ova, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais.

CENA 1: fui ajudar um amigo a atualizar o sistema antivírus e enquanto esperávamos as especificações do sistema ele colocou para tocar um CD que ganhou de presente. Ouvi, gostei, saquei do computador dele e coloquei no meu notebook para fazer uma cópia. Antes mesmo de aplicar as novas atualizações no computador do meu amigo eu já tinha guardado nos meus arquivos aquelas músicas. Ao chegar à minha casa, as converti para MP3, e no tocador gosto de ouvi-las enquanto faço caminhadas ou exercícios. Outro amigo ouviu as músicas e me pediu uma cópia. Imediatamente ele saia com um CD para ouvir. Ali ninguém cometeu crime de pirataria, não havia motivos comerciais para a reprodução. Não colocamos os conteúdos na internet ou tiramos proveito financeiro do fato. Apenas socializamos nosso gosto musical, compartilhando as músicas, como no passado emprestávamos nos long-plays. Utilizamo-nos de programas licenciados e/ou softwares livres. Tudo disponível para qualquer pessoa que entenda um mínimo de informática e tenha os equipamentos adequados. Não há nenhuma violação em nossa conduta, nem deve haver. Tudo que fizemos faz parte de uma socialização diferente da que encontramos nos camelos e produtores piratas. Mas as novas tecnologias apresentam desafios à industria fonográfica, que não tem como elevar à categoria de marginais as pessoas que socializam seu gosto musical.
CENA 2: Estava eu em um seminário sobre educação à distancia. Muita besteira, muito preconceito e um sem tamanho número de desinformação por parte dos pedagogos que organizaram àquela várzea. Lá pelas tantas um professor (pasmem) professor, doutor de universidade pública renomada, cheio de pompas e títulos, solta o seguinte comentário: “entrei nessa história de educação à distancia e me informaram que tinha que ter o gestor da página, o moderador, o num sei o que mais e até um web designer”. Não reproduzo exatamente suas palavras, mas destaco o desdém com que tratou os profissionais do mundo digital, em especial o pobre web designer, como se fosse um demo excomungado. Não me admira que as pessoas não entendam de informática, nem de educação à distância e que no Brasil confundam as duas coisas. Mas, até ai, ninguém questiona o papel de um arquiteto na construção de uma escola. Ninguém questiona a presença do bedel no controle da disciplina. Mas, quando se trata de páginas virtuais e estrutura de sítios da internet, o preconceito com as figuras que trabalham na estrutura dos provedores deixa as máscaras caírem. Na verdade o professor estava assustadíssimo com a perda relativa de importância do professor no processo de ensino-aprendizagem que se faz via internet. Professor é mais que conteudista, é educador. Mas, muitos pilantras impõem poder e disciplina com base no monopólio da informação e do conteúdo. Com a internet, conteúdos duvidosos podem ser facilmente questionados, mas educação não pode ser transmitida via webmail. De qualquer modo, como diz minha mãe, também não vem da escola em que se estudo, começa e termina em sua própria casa.
CENA 3: Outro amigo passou férias de verão no litoral. Conheceu uma garota num bar. Jogaram sinuca, conversaram, tomaram cerveja, trocaram beijos e carícias. No fim da noite, pouco antes da despedida ela soltou: “Você tem Orkut?”. Nem sei se ela sabia o nome da figura. Meu amigo não é adepto dessas novas tecnologias, como também é do tempo em que amor de praia não sobe a serra. (interessante como minha geração, que na adolescência viu crescer a internet e o celular, é diferente desta nova geração que já nasceu adepta das novas tecnologias – alguns de nós nos adaptamos rápido outros nem tanto, mas todos sofremos alguns impactos). Enfim, caso tivesse Orkut, um adicionava o outro, trocariam mensagens, manteriam contato, quem sabe marcariam outros encontros e por ai vai – independente das distancias geográficas eles poderiam manter-se minimamente informados um sobre o outro – a custo baixo; apenas a conexão de internet. Além disso, as mensagens de celular, as comunidades virtuais, tudo isso tem alterado a forma de paquera e de flerte.
CENA 4: fui com um outro amigo no cartório (haja amigo pra eu poder contar história – mas garanto que é tudo verdade). Este precisava do reconhecimento da firma do seu diploma para enviar o comprovante de sua formação para um concurso que passou. Em 10 minutos seu diploma estava reconhecido. O problema é que o diploma da Unicamp é um pedaço de papel mau e porcamente ornamentado com quatro ou cinco assinaturas que o cartório não tem a menor idéia se pode ser verdadeiro ou falso. Eu, com algum material comprado em qualquer papelaria de esquina e algum equipamento doméstico, consigo falsificar aquilo. Como é que o cartório atestava a validade do documento? Pegou o suposto original, fez cópia e atestou que aquela cópia vem do que supostamente seria original, mas que não faz a menor idéia se é ou não. O que faz com que um diploma seja original é autenticidade do número de registro. O cartório não deu a menor importância àquilo. Entrei no sitio da universidade, na diretoria acadêmica e lá tem um atalho para atestar a idoneidade do diploma averiguando isso através do número do registro. Ora bolas: por que então fazer toda essa frescura de cartório, reconhecer firma, fotocópias etc; pede logo o número do registro e confira. Burocracia, burocracia cartorária, total falta de racionalidade em tempos de transparência gerada pelos sistemas informatizados.

Eu poderia continuar a contar outras histórias em que a informática aparece como detonador de novas relações. Uma das situações em que as pessoas se colocam é como vítima do processo. “A internet está acabando com o olho no olho”; “Estamos vivendo num mundo virtual”; “Já não se fazem mais amigos como antigamente”; “Tudo é deletável”; - pois é, até novos verbos surgiram. Daqui a pouco um diz: “ninguém sabe mais escrever”. Outro dia falei com minha sobrinha na internet e ela me perguntou: “9dade???”. Decifre!! Ela queria saber se eu tinha alguma novidade! Tudo isso tem um por quê. Tudo faz parte sim de transformações sociais, mas isso não quer dizer que vá corromper velhas estruturas.
E todas as máximas do bom senso ainda valem, com ou sem o mundo digital:
1) Sempre somos resultado das nossas relações sociais, contribuímos e aprendemos com nossos pares, trocamos experiências.
2) Educação ainda se aprende em casa, se faz com discurso, se transmite com o exemplo. A boa e a ruim...
3) Paquerar pode até acontecer na internet, mas nenhum site substitui a sensação de estar com alguém querido.
4) Se o futuro acabasse com o passado estaríamos salvos da burocracia cartorária; nem tudo seria lamentável com a implementação do universo virtual; menos papeis, mais árvores. Em compensação, mais senhas, números e chaves virtuais.

terça-feira, 17 de março de 2009

O valor da informação nos dias atuais

Não tenho dúvidas: informação custa caro. Não é só um bordão dos tempos modernos. É um fato do nosso tempo. Se alguém me disser que assina a internet e está com um cartel de informações adequadas, evidentemente não concordamos. Internet é um, mas nem de longe o mais adequado meio de receber informações atualizadas a respeito do mundo e dos fatos cotidianos.

Por suposto, toda informação que acessamos a respeito de um universo social mais amplo que nosso bairro ou nossa vizinhança passa por um clivo que seleciona aspectos que considera de interesse geral. Só que o interesse geral nem sempre é de fato tratado desse jeito, seja por ingenuidade, seja por maledicência. O fato é que há várias formas de tratar a informação, de filtrar seu recebimento, de selecionar as fontes. Assim como os produtores de informação tem seus métodos de pesquisa, nós receptores também devemos ter os nossos.

Vou descrever minhas fontes de informação, calcular gastos e propor algo que me deixaria satisfeito com relação às informações. Confesso que neste exato momento não sei quanto gasto em informação, mas sei que isso custa relativamente caro se eu chego ao patamar que me proponho.

Antes, um adendo: deixei, por exemplo, de comprar a Folha de São Paulo por conta do episódio recente da “ditabranda”. Não vou entrar aqui na polêmica. Alias, não existe polêmica. Não existe termo ditabranda. Ditadura é Estado de exceção; interrupção do Estado de direito. O Brasil passou por uma ditadura entre 1964 e 1988. Ponto! Isso é fato. E qualquer veículo de comunicação que diga o contrário não pode ser levado minimamente à sério porque simplesmente não respeita o que é factual. Interpretar a realidade é uma coisa, falseá-la é grave!

Quanto a isso sou rígido. Outra coisa importante que fiz é que vinculava até pouco tempo atrás entre meus blogs recomendados de gozação das celebridades e pseudo-celebridades, bem divertidas algumas postagens. Mas, no dia em que a autora defendeu sem o menor pudor o ataque de Israel a Gaza, retirei do ar do meu blog. Acho que há argumentos e argumentos. Mas, tomar partido assim, irresponsavelmente, num assunto tão delicado – achei de uma idiotice que perece mais que repreensão, indiferença. Porque não há nada pior a qualquer veículo de comunicação, seja ele revista, jornal, site ou blog, do que a INDIFERENÇA. Existem veículos que simplesmente na cito. Não por acaso. Eles não merecem repreensão, merecem indiferença. Quando são irresponsáveis, precisam ser ignorado.

Tomo tanto cuidado com isso que até agora não comentei o caso da excomunhão dos médicos, mãe e filha no caso de aborto em Recife. Não falarei nada enquanto eu não conversar com minhas fontes. Alguns católicos que conheço. As opiniões a respeito de casos sérios precisam ser balizadas. Quem trata isso com o devido cuidado e responsabilidade tem meu respeito, quem não trata: ignoro.

Voltemos ao tema. O que gasto com informação hoje. Segue a lista:

  1. kit residência: internet, telefone e TV à cabo. Plano básico: R$ 189,00 mensais divididos pelos três moradores da casa: R$ 63,00 mensal. Dificilmente pra quem valoriza informação ou trabalha com ela ignorar telefone e internet. TV à cabo ajuda a fugir dos canais abertos e encontrar documentários, jornais, mesas redondas e programas de TVs públicas... graças ao cabo assisti a discussão do Supremo sobre a lei eleitoral das ultimas eleições e achei tudo um absurdo sem tamanho – não fazia idéia de como era aquilo.
  2. Jornal semanal: não assino jornal. Acho desperdício. Se assinasse, creio que fugiria dos convencionais. Talvez hoje o melhor jornal pra se receber em casa seja o Valor Econômico. Talvez. O que fazia era comprar a Folha às sextas e domingos – sexta pelo guia do ócio e domingo pelos cadernos extras. Agora compro o Estadão. R$ 6,50 por semana. Média de R$ 26,00 mensais.
  3. Não assino a National Geografhic. Talvez devesse. Mas, sempre que há uma queda na bolsa (na minha, não na de valores), tenho a opção por não comprar. O que ocorre, em geral, é que todo mês compro a revista. R$ 14,99
  4. Fora isso, exporadicamente compro algumas revistas do tipo Carta Capital, Caros Amigos etc. Às vezes compro um jornal internacional; gosto do EL PAIS, mas também tem o LE MONDE. A vantagem de se morar em São Paulo é que se passear pelas bancas de jornais aos domingos, na Av. Paulista, vai encontrar todos esses jornais e algumas opções o norte-americano NYT, um alemão que não me lembro e o argentino Clarín, com facilidade. Ainda é fácil achar a versão brasileira de Le Monde Diplomatique. Os preços são salgados. Nenhum deles sai por menos de R$ 8,00. Mas vale a pena dependendo do assunto do momento – como a eleição de Obama e, agora, a crise mundial. Em geral faço esse “exagero” umas 2 vezes por mês. R$ 16,00 por mês.

Somando minhas fontes, tenho um gasto mensal de R$ 119,99 – em informação. Em média. Pode diminuir ou aumentar de acordo com a variação da receita. O processo é pensado para isso, de acordo com a vida maluca de pesquisador, que é instável. Ainda sim, acho que gasto muito além do que a média de gastos dos brasileiros. Isso porque seleciono as informações que quero e levo muito à sério a honestidade das minhas fontes.

Anualmente eu gasto em média: R$ 1.439,88 em informação.

Agora, simulo o que considero gasto ideal em informações:

1. kit residência. Não mudaria. O kit básico da TV é mais que o suficiente. R$ 63,00

2. Jornal: compraria esporadicamente. 2 ou 3 vezes por semana. Não assinaria um jornal enquanto contar com as opções de mercado. Manteria a compra do Estadão na sexta. Acrescentaria o Valor Econômico segunda e quarta e a Gazeta Mercantil na sexta (o suplemento de Cultura que circula às sexta na GM ainda é o melhor de todos). R$ 14,50 por semana R$ 58,00 mensais.

3. Revista. Manteria a NatGeo e assinaria uma revista semanal. Ou pelo menos compraria com mais freqüência. Hoje, creio que a revista mais adequada ao meu perfil é a Carta Capital. Ou seja R$ 161,00 (NatGeo ao ano) + R$ 369,00 (Carta Capital). Por R$ 530,00/12 meses, R$ 44,17 mês.

4. Compraria toda semana um jornal internacional. Ou El País, ou Clarín, ou Le Monde Diplomatique, ou New York Times. Cada semana um, não necessariamente numa regularidade rígida. (desculpa, mas jornal em alemão ou italiano que seriam outras possibilidades ainda não tenho familiaridade pra sequer tentar entender). R$ 8,00 por semana, R$ 32,00

5. Assinaria ainda uma revista especializada da minha área. A maior parte das profissões no Brasil tem pelo menos uma boa revista especializada. Geógrafos, Médicos, Filósofos, Psicólogos, Advogados, Engenheiros, aquela que os principais nomes da área escrevem artigos longos sobre temas bastante específicos e com a linguagem da área. Em geral leio os artigos nas bibliotecas de ciências sociais, mas com incômodo atraso. Assinaria a Revista Brasileira de Ciências Sociais e a Lua Nova - Revista de Cultura e Política. Mas, temos outras revistas importantes que merecem ser citadas, como a Dados - Revista de Ciências Sociais, ou a Novos Estudos CEBRAP. (RBCS por ano R$ 60,00 e Lua Nova R$ 50,00) R$ 110,00/12 = R$ 9,16

Assim, o meu gasto mensal com informação, numa situação ideal, subiria para R$ 206,33 ou, por ano: R$ 2.476,00. Ou seja, gasto hoje, pouco mais da metade do que acho que deveria gastar idealmente. Talvez, com as condições financeiras para gastar tanto, eu julgue que posso aplicar o dinheiro em outras coisas.

Evidentemente, desconsiderei a aquisição aspectos que nos ajudam a processar a informação cotidiana, como comprar (e ler – não adianta só comprar) um livro, um CD de músicas, assistir um filme, seja ficção ou documentário, ir a uma palestra. Lazer ou conhecimento ajudam-nos a melhorar nossa compreensão do mundo e por conseqüência melhoram nosso modo de processar informação. Neste texto calculei apenas o gasto direto com informação. Selecionei minhas próprias fontes, avaliei informações, mas conto com o privilegio de ter acesso a uma das universidades mais importantes deste país. O que não é pouca coisa em termos de acesso à informação. Muitas empresas compram hoje informação e aí o custo é altíssimo. É um mercado em franca expansão. Seja na produção de informações escritas, em imagens ou em forma de cursos. Saber a origem e discutir a seriedade das informações é fundamental para podermos processar seu impacto e tomar nossas conclusões por nós mesmos.

Sei que o leitor que mora no interior tem muito mais dificuldades que eu para acessar informações. Ele não terá a disposição a Avenida Paulista. Me lembro que meu irmão, morador de uma pequena cidade do interior paulista me contou que assinava uma revista semanal, reacionária e falsária que me recuso a propagar até mesmo seus vícios... enfim, ele contou que a revista chegava a casa dele às quartas, quintas feiras, quando o normal é chegar segunda. Em São Paulo já estão nas casas na sexta ou sábado. Ele foi reclamar no correio depois de ligar ao serviço de atendimento ao cliente da revista – que magicamente passou a chegar religiosamente as segundas. Infelizmente os carteiros da cidade passaram a ter poucas horas para ler a revista de um dos único assinante da cidade. Ou seja, as pessoas, bem ou mal, de diferentes modos acessam informações, mas é importante lembrá-las que isso diz algo a respeito do que pensam e do modo como agem politicamente – por que não é só dinheiro, mas também tempo gasto nestes processos.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Eleições 2010: uma armadilha que nos leva ao exercício da fútil futurologia

Você poderia me dizer qual a diferença entre especulação e conjectura?
Não procure nos dicionários de língua portuguesa. Não vale a pena. Só os dicionários de filosofia, porém, dão boas dicas da complexidade dos termos que rigorosamente usados são mais sofisticados que o usual.
Especular está ligado ao pensamento teórico, não envolve a ciência prática, ou seja, foge à prova material. É um modo de encarar a filosofia: elucubrar, pensar, filosofar – segundo Aristóletes, a metafísica, que vai além da física e é a mais nobre de todas as ciências, este é o pensamento especulativo. Assim, o pensamento especulativo parte para uma formulação de idéias que observam o movimento da substância, quer entender a essência. Especulação é um modo de fazer filosofia que não tem mais a mesma força argumentativa de séculos passados – separa o teórico do prático e se funda no idealismo metafísico praticamente execrado pela comunidade científica contemporânea como fonte de conhecimento. Já conjectura se sustenta como um postulado que não foi provado verdadeiro, é uma hipótese que sustenta previsões e que se fortalece com a realidade dos casos, é menos que uma teoria, mas se sustenta em regularidades passíveis de previsão. Conjecturas têm grandes chances de acontecer, mas não deixam de ser previsões. Conjectura todos os cientistas fazem desde os matemáticos aos filósofos – são teses que testam os limites do conhecimento. A diferença entre conjectura e especulação? Quem não separa a física da metafísica não especula, pode no máximo conjecturar fatos. Quem especula o faz com base na busca pela essência das substâncias, na origem das coisas busca o que a física e a matéria não podem dizer.
Mas, o que todo esse mausoléu tem a ver com a eleição presidencial de 2010? A resposta a essa pergunta nos leva à uma outra pergunta, mais simples de fazer, mais difícil de responder: as previsões sobre as eleições de 2010 baseiam-se em exercícios especulativos ou conjecturas quando são divulgadas? Acrescento: Qual a lógica para tais debates? Qual o valor científico dos exercícios divulgados?
Quando lhes dizem que a crise pode afetar a popularidade do presidente, que em queda nas avaliações a respeito de seu governo pode ter dificuldades para transferir votos a seu candidato, que por sua vez vai ter dificuldades eleitorais sem o apoio do presidente – essa cadeia de raciocínios coerentes é especulativa ou conjectural? E quando coloco que o PMDB vai esperar a definição da crise para saber em que candidato aposta, mesmo que pelo lado do presidente da Câmara há uma predisposição ao apoio ao PSDB, e do lado do presidente do Senado há uma predisposição ao apoio ao PT. Todos trabalhamos com a hipótese de que haverá um confronto entre PSDB e PT nas próximas eleições, provavelmente entre Dilma e Serra; que espécie de lógica estou usando para este tipo de dedução? Antes de responder a qualquer dessas perguntas, podemos nos questionar: por que questões como a crise e o PMDB são decisivas para prever qual o próximo presidente da república? Sob quais critérios essas variáveis são determinantes? Ou ainda mais atrevidamente: quem define que o próximo presidente possivelmente sairá de PSDB ou PT?
Muitas firmas usam sua capacidade de prever acontecimentos para vender informação. Muitas empresas compram essas informações. Os partidos participam desta lógica nefasta. Para essas engrenagens rodarem falta estabelecer um tipo de relação; para que haja certa confiança no trabalho oferecido deve haver determinada utilidade no trabalho comprado. Duvido que a utilidade tenha a ver com capacidades de previsão, sejam especulativas ou conjecturais.

Ou seja: as firmas (e/ou consultores) que vendem informações processadas mesmo não acreditando que estão prevendo acontecimentos e as empresas que compram as antecipações usam essas projeções para guiar suas decisões coorporativas, mas com a margem de erro garantida. Esta é uma indústria em franco crescimento que funciona a base do engano. Mas, pacto mediocridade faz com que os enganados sejam as pessoas comuns e não as coorporações. A despeito de nós, eleitores, ela funciona porque os participantes desta rede são uma elite poderosa e detentora da capacidade de mobilizar a opinião “pública” em torno da decisão que lhes convêm. Assim, ao contrário do pensamento especulativo ou das conjecturas, o ponto de partida não é o objetivo do trabalho, mas o ponto de chegada é que interessa. Ou seja: não estou interessado em saber se a minha argumentação é capaz de prever o futuro, mas quero que a mobilização que provoco defina as questões que interessam ao futuro.
Tento ser mais claro a partir de um exemplo: Muitas das informações aparecem “plantadas” – isso quer dizer que não são fatos consumados, mas querem levar a tais. Por exemplo, uma manchete no jornal: maioria no PSDB apóia candidatura de Serra. Mas, ninguém teria feito um levantamento para saber se esta afirmação é verdadeira, falsa ou parcialmente verdadeira – sob tais e quais critérios. A idéia pode ser simplesmente garantir o impacto da informação e valer-se da influência do divulgador da notícia para consolidar uma possibilidade. Isso acontece muito (aconteceu recentemente); tem o objetivo de orientar decisões e nenhum compromisso com os fatos, a realidade ou a verdade. É um jogo no qual a ciência e tudo que ela representa não interessa. E, neste contexto, posso simplesmente manipular meu critério: se entendo que os correligionários do PSDB em sua maioria não sabem se apoiam Serra ou não, posso divulgar: "Cúpula do PSDB apoia Serra", em seguida dizer que é a opinião da cúpula é determinante para a escolha do candidato e não a posição dos correligionários - mesmo que o estatuto do partido diga que o veredicto é dos corregilionários, posso dizer que tradionalmente a base acompanha a cúpula - fiz uma descabida previsão que não quer dizer nada do ponto de vista do futuro, os correligionários têm a liberdade de tomar a própria decisão, mas foram orientados a uma única possibilidade por um fraco argumento.
Assim, o que fazem as consultorias e afins não é buscar verdade nos fatos, mas criar fatos que levam a determinadas "verdades". Mais fácil de prever o resultado da conta quando se manipula o cálculo. Por isso, o grau de confiança no resultado torna-se alto na medida da influência da firma e não a partir do seu rigor lógico.
Se, é corriqueiro tal exercício quando lemos em jornais e revistas determinadas previsões, sejam elas eleitorais ou econômicas, devemos acreditar no que está dito? Quando estamos fazendo ciência e quando é ideologia?
A comunidade cientifica e acadêmica despreza tais exercícios de futurologia. Não por acaso: são proposições descabidas de compromisso com a verdade e sem compromisso com a realidade. Já a sociedade da informação elege, não sem propósito, seus interlocutores e não tem o menor pudor em divulgar tais informações.
Só sabemos quando uma informação é séria quando suas fontes e seus critérios são divulgados. Mesmo assim, dizer quem tem mais chances de vencer uma corrida eleitoral e por quais motivos é um exercício de quem erra menos. Quais fatores elegem um presidente da república? Qual o fator determinante na orientação pelo voto? Ninguém sabe dizer. Alguns parâmetros existem, mas cada eleição é uma eleição diferente e esses parâmetros ganham pesos diferentes em cada pleito, assim como são combinados de modo particular em cada circunstância.
Isso qualquer pessoa com bom senso sabe. Mas, ainda sim, todos teimamos em fazer previsões, discutir resultados, elaborar cenários, criar fatos, pensar em possibilidades, incorporar funções e variáveis.
Só estou certo em dizer que este vício humano induz ao erro.
Precisamos reconhecer que ninguém sabe por exemplo qual o efeito (ou se vai haver efeito) da crise na eleição ou no comportamento eleitoral. Muito menos passível de previsão é qual o peso do tema econômico na eleição. Seria isso mais importante de discutir que o perfil dos candidatos? Ou que as questões sociais envolvidas? Ou que o regionalismo que caracteriza o Brasil? Ou sobre a política de alianças? Evidentemente os consultores não deixam de discutir tudo isso. Mas, o que distingue um cientista de um mero consultor é que os consultores olham as variáveis orientadas ao resultado que esperam alcançar. Ou seja, o modelo deve ser adequado aos resultados; portanto, o resultado não é visto como um produto derivado do modelo.
É ao que precisamos estar atentos: boa parte desses exercícios de previsão tem por objetivo orientar nossa opinião presente e não fazer um exercício de prospecção futura. E, não há conjectura nem especulação envolvidas neste fato. Estamos falando de pura ideologia: uma tentativa de embutir à realidade determinados aspectos de interesses particulares em detrimento de questões mais gerais e assim direcionar o comportamento da campanha para aspectos que interessam a determinados grupos seletos e não a algo que necessariamente seja de debate coletivo. Se eu lhes digo que o próximo presidente deve ter um perfil de bom gestor e de ser conciliador, estou lhes dizendo que o que importa é a crise financeira e as alianças. Ou seja: elegi a participação do PMDB e a gestão da crise como critérios fundamentais para a escolha do voto. Se a população aceitar o debate, não fiz uma previsão, fiz uma escolha prévia. Mas, quem disse que este é o melhor perfil é este? Concordo que é um critério que interessa a boa parte da sociedade, mas com pesos diferentes a diferentes castas sociais. É assim, orientando a opinião da maioria que as firmas agem, não desenvolvimento mecanismos eficientes de conjecturar ou de especular.
Sobre a pergunta que paira no ar na mídia ultimamente: quem tem mais chances de ser o presidente do Brasil em 2010? A resposta mais correta seria, há poucas chances de se antecipar o resultado. Mas as empresas e os interesses econômicos que fazem suas consultas não estão interessados nas previsões e sim no direcionamento do processo. No caso: é preciso entender que os interessados na divulgação do debate não estão preocupados em comprar informação que se orienta sob fatos, estão na busca por influenciar o processo com critérios particulares. Neste sentido, colocam suas demandas a serviço dos consultores.
Por ai se percebe que a respeito do processo eleitoral não interessa ao debate prévio colocar em questão as demandas significativas da sociedade. Mas, se não cairmos na armadilha de tentar prever fatos e movimentos, podemos abrir um debate franco e honesto, onde a prospecção e a especulação são bem-vindas. Devemos, assim, fugir de nomes, siglas e ideologias. O interessante é que os movimentos sociais se apresentem como interlocutores de fatos e demandas. Antes de apoiar ou definir questões, discutir fatos e eventos; devemos conjecturar sobre possibilidades reais e materiais e especular sobre origens e substâncias fazer previsões com base em fatos reais e possibilidades matérias. Ao contrário disso, só cairemos mais uma vez nas armadilhas das ideologias.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Do ofício de sociologo, um laboratório imaginario e o ensino superior brasileiro - parte I: a frustração do cientista

Sempre tive uma certa frustração enquanto cientista social: não tenho laboratório. Fico com aquela sensação estranha por não tenho um lugar onde eu possa fazer as mais estranhas experiências sem o devido isolamento de “fatores externos”. Os físicos, os químicos, os biólogos, todos podem fazer aquele tipo esteriotipado de cientista com guarda-pó, óculos, cabelo espatifado nos laboratórios, com direito a tubo de ensaio, acelerador de partículas, explosões e fórmulas secretas. Mas, o cientista social não. Essa história de isolar nosso objeto do meio é sonho de uma noite de verão. Coisa que leva gente até mesmo a duvida que cientista social é cientista.

Supondo que a idéia de um laboratório é reproduzir a realidade em condições ideais, aplicar uma hipótese metodicamente organizada, avaliar resultados e interpretar regularidades, fica difícil fazer um laboratório do comportamento social. Principalmente porque a sociologia entende justamente que é a sociabilidade o objeto de seu estudo. Isolar qualquer pessoa ou comportamento do seu meio é justamente retirar um dos fatores mais importantes do objeto das ciências sociais: a ordem social. A ordem social é historicamente construída, numa vasta sucessão de tentativas e erros. Assim, outro elemento fundamental dos sociólogos é a história.

Mas, como fazer pesquisas em um laboratório se justamente o que faz um investigador das ciências duras é criar teorias retirar a historicidade de qualquer elemento? Portanto, o papel do sociólogo enquanto cientista é encontrar regularidades no comportamento social numa condição completamente adversa em relação aos seus pares de outras ciências; sem usar laboratórios, mas com as condições sociais existentes. Esta ciência tem como fundamento gerar teorias que respeitem os fatos sociais ao mesmo tempo em que encontra na história da humanidade fatores que permitam aproximar e/ou distanciar relações sociais das regularidades necessárias pelos métodos de construção científica.

Mas, engana-se quem acha que ao ter plena consciência das diferenças entre as ciências sociais dos seus pares que tramitam nas questões da natureza reduz minha frustração ou a tende ao zero. Pelo contrário: fico ainda mais curioso a respeito de quais as condições para desenvolver a sociologia ao status de uma ciência aplicada.

Idéias não faltam, mas as condições são estranhas. Confesso que me fascino com cada novo fracasso ao tentar fazer experiências sociológicas. Este artigo é a história de um das minhas mais recentes tentativas de isolar os elementos externos e fazer da sociologia uma ciência provida de instrumental analítico e regras axiológicas.


Do ofício de sociologo, um laboratório imaginário e o ensino superior brasileiro - parte II: o experimento

Tenho convivido com vários professores universitários. Muitos dos meus amigos se tornaram professores em diversos lugares e nas mais diversas instituições. E, entre uma conversa e outra, um café aqui, uma cerveja ali, surge sempre o papo da docência no ensino superior. Nunca como um caso bem resolvido e satisfatório, mas histórias cheias de contradições, horrores e conflitos.

Percebi que ali eu tinha uma regularidade curiosa. Minha amostra era considerável a respeito da diversidade com que se apresenta a realidade brasileira a respeito do ensino superior. Conversei com professores de instituições públicas, privadas, fundações tradicionais e renomadas, escolas novas e de pouca ou nenhuma tradição. Em todos os casos a reclamação era muito parecida; parecida o suficiente para me fazer questionar sobre o que diferenciava realmente a qualidade de ensino de uma e outra. Dizer que os professores das universidades públicas (em mesma faixa etária) são melhores que os de escolas particulares é no mínimo precipitado, embora as condições de trabalho que permitem melhorar o desempenho dos primeiros sobre os segundos são inquestionáveis.
Mas, se os alunos (entre faculdades públicas e privadas) tinham à disposição professores relativamente parecidos, o que os tornava, depois de quatro ou cinco anos, tão diferentes no quesito formação? Sempre são os alunos de Estaduais Paulistas ou Federais que tem as melhores notas em avaliações e são depois os profissionais mais procurados no mercado. Mas: onde eles começam a se diferenciar dos demais?
Com a conversa com meus amigos percebi que entre os alunos que ingressam no ensino superior não havia enorme diferença em relação às groselhas que soltavam nas salas de aula. Havia pérolas dignas de suicídio, vindas de qualquer lado, sem distinção ou corte sociológico. Na faixa dos dezoito anos, sendo homem ou mulher, pobre ou rico, independentemente de credo, cor ou ocupação, havia muita frustração dos professores em relação à mediocridade dos alunos. Esse fato me deixou mais instigado. Evidentemente estou exagerando na aproximação. O nível de exigência e comprometimento que um amigo-professor faz dos alunos nas instituições públicas era maior que outro cobrado em escolas particulares. Mas, a pergunta me perseguia: quando os considerados melhores começavam a se diferenciar dos medianos? Quais os elementos que levam a essa definição das universidades? Fazendo da minha dúvida filosófica imagética: mais ou menos em que momento na estrada da formação intelectual do indivíduo se coloca uma bifurcação sem placas indicando; se ele tomar o rumo (à esquerda; por exemplo) vai alcançar as melhores oportunidades de formação e profissional; se tomar o ruma (à direita, supomos) vai seguir numa massa de medíocres, onde a sua oportunidade de ascensão profissional não tem nenhuma relação com sua formação. Em que momento esse impasse se realiza?
Minhas conversas com os amigos tornaram-se um problema sociológico. Tive a sorte de conviver e conversar gente em posições diferentes do circuito universitário para perceber que existe uma certa regularidade em muitos cursos universitários que são considerados dispares. São maiores as regularidades que supõem os artigos jornalísticos ou as choramingas de pseudo-intelectuais-celebridades que para se aparecerem à comunidade vivem a reclamar. É evidente que se tomarmos pelos resultados, as universidades públicas são bem sucedidas e as instituições privadas são de “segunda linha” na formação profissional. Mas, se nos perguntarmos o que diferencia um caso dos outros, responder “as universidades públicas são de qualidade e as outras não” nos coloca num buraco negro. Cada um entende uma coisa diferente por qualidade e vira um blábláblá sem tamanho.
Cientificamente falando, deveríamos usar experiências laboratoriais para isolar os elementos e identificar o fator ou os fatores que determinam a qualidade no ensino superior. O problema, como eu disse é que o sociólogo não tem laboratório. Ferrou! Acho que ficou suficientemente claro no inicio deste texto que sociologia e laboratório são realidades distintas. Mas, se não ficou, talvez mais à frente vamos tornar isso mais evidente.
O fato é que tenho um problema tão complexo quanto qualquer outro apresentado pelas ciências da natureza ou as ciências duras. Posso (e em seguida vou) formular algumas hipóteses em relação aos fatores causais e as relações que implicam no advento dessa regularidade; essas hipóteses necessitam ser testadas em distintas situações para que se prove a sua regularidade e para que isso se torne teoria a pré-condição é que nenhum; repito: nenhum, caso desde aqui ao infinito pode contrariá-la.
Outro problema que surge em relação aos fatos sociais é que ao tomar consciência da realidade que me cerca, posso querer transformá-la, trabalhando com experiências que contrariem minha regra geral. Nas ciências sociais identificar um problema, torna-lo consciente, apreende-lo, via de regra significa criar estratégias para supera-lo. Se Newton encontrou as leis que regem a gravidade, conhecer este fato não o fez altera-lo. A lei da atração dos corpos existia antes de Newton a demonstrar e existira depois da sua demonstração. Talvez se isolarmos os fatores que regem a qualidade do ensino, vamos conseguir melhorar o ensino superior e então surgirão outros fatores para reorientar as condições sociais, porque entender alguma coisa sobre si mesmo ou sobre a sociedade em que vive faz com que os seres humanos adaptem suas condições de existências. Assim, descobrir regras gerais significa imediatamente decretar formas de sua superação.
Evidentemente essa contradição encontrada nas ciências sociais não a torna menos científica que outras ciências. E para eu trabalhar meu problema no ensino superior tracei algumas estratégias baseadas em hipóteses que levantei através de meus estudos e observações sociais.
É fato que o vestibular realiza um corte ao selecionar os alunos com maiores notas para as universidades mais exigentes. Mas, entre um aluno que passa no vestibular e um outro que ficou a poucos pontos, a diferença é tão pequena que não podemos dizer que apenas os que foram aprovados têm condições de fazer o curso e os reprovados estão fadados a profissionais de segundo escalão. Em alguns casos, alunos não aprovados tem enorme potencial para desenvolver-se durante o estudo universitário – e isso não é avaliado pelo vestibular; nem tem como. Ao mesmo tempo, também não é possível desprezar a seleção que é possível conseguir com este processo de recrutamento. Mas, a pergunta correta que nos interessa aqui é: em que medida, já no vestibular, os profissionais de sucesso no futuro estão definidos? Qual a importância da seleção? Será que se eu colocar todos os alunos aprovados no vestibular de uma estadual paulista numa escola do vale do ribeira eles vão se tornar profissionais com a mesma maestria? Esse seria um bom laboratório, mas seria absolutamente irreal porque os alunos poderiam (como com certeza fariam) encarar a situação como um desafio e empenhar-se quatro vezes mais e assim conseguir superar qualquer adversidade que numa situação “normal” não seria considerada. Mais uma vez meu intuito laboratorial foi por água à baixo. Que frustração... e que complicação é essa história de ciências humanas.
Já comentei que tenho certa relutância em aceitar que a diferença está no corpo docente. Claro, falo especificamente da realidade que conheço em São Paulo. Mas, conheço muitos professores das diversas redes, de diferentes estados e o que distingue uns dos outros são detalhes que não comprometeriam o resultado geral da formação dos alunos. O que realmente distingue a realidade de um professor das escolas particulares e de algumas públicas são as condições de trabalho e não necessariamente a formação ou a competência. Isso tem impacto ao longo dos anos, mas não necessariamente no tempo da formação universitária em graduação. Ter tempo para preparar aulas e pesquisar, ser cobrado a orientar trabalhos e publicar artigos e ganhar salários condizentes com isso faz diferença ao longo da carreira. Esse é um ponto importante que pouca gente discute: enquanto o professor de carreira docente valorizada ganha conhecimento, enriquece seu currículo e acumula experiência ao longo dos anos, um outro que trabalha em condições precárias torna-se cada vez mais desatualizado, desestimulado e superado. Talvez sejam mais importantes planos de carreira com diversificação das atividades e tempo para pesquisa, que as reclamações sobre o tamanho das salas de aulas ou a quantidade de alunos por turma; para uma discussão da valorização do espaço docente. Talvez...
De qualquer modo, isso ainda não esclarece meu problema. Tenho visto cada vez mais pessoas reclamando do corpo discente e da dificuldade que é a relação de transmissão de conhecimento aos alunos que estão cada vez mais despreparados e imaturos para formarem-se. Não se trata de estrutura de trabalho propriamente, mas da dificuldade da formação. Talvez, ainda que em condições de trabalho melhores, os professores tivessem as mesmas dificuldades para implementar um plano pedagógico condizente com o que esperam que seja a formação de um profissional da área em que se colocam. E se essa hipótese for real, o problema da qualidade do ensino universitário não esta exatamente no corpo docente e suas melhores condições de trabalho (ainda que justas) não são necessariamente a resposta para uma melhora no ensino superior. (não usei o laboratório, mas pelo menos nesta hipótese trabalhei em um exercício de lógica formal).
Continuemos na experiência sem pausas metodológicas. Portanto, se o problema nuclear está no corpo discente. Concentremo-nos nele: o que faz um aluno a empenhar-se em aprender? O que o estimula a estudar? A paixão pelo conhecimento seria uma resposta? Um bom professor? Mas, o que é um bom professor? O que faz micagens ao centro do palco/sala de aula? Ou o que, mesmo monotonamente faz as perguntas mais importantes? Uma escola que mais parece um shopping center seria um bom estímulo ao estudo? Ou um lugar onde sua atenção desprezasse o ambiente para poder concentra-se no conhecimento?
A verdade é que as condições ideais para produzir e reproduzir conhecimento são chatíssimas se colocadas ao lado das atuais estratégias de marketing e dos meios para chamar atenção das pessoas. Em nome de que alguém abriria mão de todas as maravilhas do mundo moderno para passar horas de sua vida em frente de livros mal cheirosos e monótonos, sem a menor interação hitech. Tudo bem; concordo com os teóricos dos modismos que não dá mais pra ensinar uma criança de sete anos com lousa e giz enquanto ele tem computadores e videogames a disposição. Mas, não venha ninguém querer me provar que aos dezoito anos um adolescente não sabe que é preciso dedicação para tornar-ser um profissional responsável.
Talvez essa seja a real condição social dos jovens no Brasil hoje. Talvez ai encontre-se o meu principal gargalo e foi nesta hipótese que me concentrei. Se um adolescente não está preparado para a formação profissional, porque então força-lo a freqüentar uma universidade? Aparentemente, os que conseguem êxito no vestibular são os que engolem à ceco o remédio de terem que se dedicar ao estudo chato dos livros, pese todas as tentações do mundo. Mas, outros sem a mesma dedicação, ficam pelo caminho e optam pelo mínimo esforço. Se minha hipótese está correta, o que acontece em algumas universidades está no processar o potencial dos alunos imaturos até os tornar preparados para o desempenho da sua atuação profissional, enquanto outras não conseguem o mesmo êxito, mesmo partindo de um mesmo ponto inicial.
Mas, minha dificuldade ainda continua a mesma: como provar ou sustentar empiricamente minha hipótese? Que elementos eu teria para defender essa minha interpretação a respeito de uma questão tão difícil como a que fala a respeito da formação profissional de jovens de dezoito anos que mal estão seguros de que suas escolhas profissionais são a correta?
Tive uma idéia para minha empreita. Entre tantas dúvidas resolvi no alto das minhas carências científicas (careço de laboratório, careço de instrumentos, careço de aplicações no mundo da sociologia, careço de instituições que trabalhem essas questões, careço de dados, careço de financiamento – sou uma carência científica completa). Mas, não é motivo para desistir de meus experimentos; jamais!
Tentei fazer das minhas carências uma experiência científica, laboratorial e sociológica: propus a alguns de meus amigos professores que levassem aos seus alunos – a maior parte deles primeiro anistas em cursos de administração de empresas – uma cédula para votarem. A experiência consistia em testar a importância que os alunos davam a sua formação superior. Fiz a seguinte pergunta para uma resposta simples (sim ou não): Supomos que a Faculdade lhe faça a seguinte proposta: você estaria totalmente dispensado de aulas, trabalhos, provas, exames e qualquer outra obrigação acadêmica com a condição de não freqüentar o espaço da escola em hipótese alguma. Após os quatro anos necessários, apenas honrando seus compromissos com mensalidade, caso haja, você recebe normalmente, sem menor prejuízo, seu diploma. Você assinaria o contrato agora? Seguiam as duas alternativas para assinalar com um “X”.
Como conheço várias pessoas, não foi fácil fazer o pedido para que amigos distribuíssem a seus alunos a cédula. Organizei vários pacotes, fiz folhas diferentes e ao todo, segundo meus cálculos sem muito esforço eu conseguiria uma amostra de 700 alunos em 8 instituições diferentes. Das mais diversas realidades, faculdades em periferias, em regiões centrais, públicas, privadas, da capital, do interior, tradicionais e novas. Sim, sim... tenho muitos amigos e me orgulho disso.
Ao todo, meu experimento me custou pouco mais que R$ 20,00 entre impressões, envelopes e cortes de papel. Também coloquei na conta alguns cafés que paguei pra pedir para um aqui ou outro ali... estratégia de convencimento para que levasse na sua escola os envelopes. E, claro, não inclui no orçamento o tempo que me gastou preparar e correr atrás de tudo isso, nem mesmo tempo em escrever este artigo. Mas, isso foi financiado pela minha curiosidade científica mórbida...
Alguns de vocês esperam que agora eu apresente os resultados desta minha epopéia em busca dos fatores que determinam a qualidade do ensino superior brasileiro. Pois bem, a resposta é: os professores não aplicaram os questionários. Os alunos sequer foram provocados a responder e eu fiquei sem a menor condição de testar minhas hipóteses.
A maior parte dos meus colegas professores nas faculdades, ao pedir autorização aos seus coordenadores, foram desmotivados a fazer a consulta. Entendo que ao não representar nenhuma instituição, nem mesmo ser parte de um projeto de pesquisa, minha curiosidade mórbida não foi motivo o suficiente para convencer os coordenadores a aplicarem o questionário. Eu havia feito uma carta assinada ao coordenador, certificando que os dados e o nome da instituição seriam sigilosos e não divulgados e que a consulta era acadêmica e com propósitos científicos. Mas, isso não foi o suficiente. Supus, erroneamente, que os próprios coordenadores ficassem curiosos para saber o que pensavam seus alunos quando diante de tal pergunta e que isso facilitaria a autorização. Talvez eu tenha superestimado o interesse das pessoas em tal questão. Em conversa com um de meus amigos, ele me disse que a impressão é que seu coordenador tinha medo das respostas dos alunos. E, a impressão geral quando falo com alguém a respeito da minha questão era que os alunos das piores instituições iriam colocar “sim” para a resposta e os das melhores “não”. Eu esperava ser surpreendido, com proporções de respostas parecidas entre as “melhores” e “piores” instituições. Se isso acontecesse, teria oportunidade para desenvolver novas hipóteses para explicar os resultados. Sem respostas não tenho como discutir meus resultados para além do terreno das especulações. Para um cientista, isto não é aceitável.
Evidentemente que tenho plena consciência que qualquer conclusão que eu tirasse vinda das análises de uma amostra tão pequena e fútil seriam precipitadas, mas talvez eu já tivesse indícios para provocar uma reflexão maior. Sem as respostas, porém, só posso relatar a motivação para fazer esta e não outra pergunta aos alunos e dizer que é sociologia; e onde ela pode ser aplicada. (talvez tivesse dado certo minha tentativa e eu tivesse mais elementos para provocar neste artigo, mas isso nunca vou saber; só posso dizer que assim como qualquer outra ciência, experiências sociológicas podem ser praticadas com pouco custo e alguma criatividade, mas sem dúvida, com trabalho sério, honesto e dedicado).
Fazer uma única pergunta, simulando a motivação pela qual um aluno assinaria um contrato que definisse a sua expectativa sobre a vida universitária: esse era o princípio do experimento. A pergunta tinha inúmeras artimanhas. A primeira delas, ao propor apenas duas respostas válidas, levava o aluno a pesar entre prós e contras de dedicar-se aos estudos e principalmente se este tempo dedicado faria diferença positiva em sua vida. Depois, não o desobrigava de várias vantagens ou ônus que ao freqüentar uma graduação pode trazer. Para muitos o mais difícil era pagar o curso, portanto, receber o diploma depois de quatro anos gratuitamente era um bom negócio que economizaria muito sacrifício. No momento em que não reduzi nem o tempo, nem o custo, isolei a variável conhecimento. Além disso, ao impedir o transito do aluno pelas dependências da escola, portanto: impedi que a sociabilização, a paquera, os amigos pudessem ser um fator de interferência para dizerem sim. Ou seja, considerei que o conhecimento também se constrói nos espaços de sociabilidade das escolas, não apenas na estrutura da sala de aula/laboratório. De outro lado, minimizei o risco de fracasso supondo a dispensa de provas e exames, não se considerou a possibilidade de não obter o diploma mesmo que sem preparo. Assim desassociei conhecimento de diploma; conhecimento do exercício de uma profissão e escola de trabalho. O aluno pode pensar que aprender a trabalhar não se aprende na escola, mas na prática, como muita gente realmente pensa.
Ai está o cerne da questão: em que medida a educação é considerada como um fator de ascensão pelos jovens? Se considerarmos a relação entre educação e estratificação social, o Brasil é um fracasso na promoção da ascensão social via conhecimento. Enquanto em muitos países, ter uma faculdade concluída, uma pós-graduação etc é muito importante e valorizado pelo mercado de trabalho, sabemos que no Brasil, as relações pessoais, os contatos, as amizades contam muito (igualmente ou talvez mais). Não me propus a medir exatamente o que conta mais, a posição social, os contatos ou o diploma. Mas, me interessava investigar como os jovens percebem isso. A pergunta era apenas um impulso, uma provocação, daria, talvez, indícios, não responderia amplamente a questão – mas, já seria o suficiente para provocar muita gente. De qualquer modo, as questões ainda ficam pendentes, com ou sem pesquisa realizada.
É claro que para uma pesquisa dessas ser válida, precisa ser mais completa; necessitaríamos que uma amostra considerável, com elementos socioeconômicos avaliados e um recorte mais preciso. Hoje sabemos que o processo de seleção dos alunos, a carreira docente, a estrutura universitária, o investimento em infra-estrutura, a proporção baixa entre alunos e professores, o investimento em pesquisa, ensino e extensão, a excelência dos pesquisadores; tudo isso somada dá às universidades públicas sua excelência em ensino superior, mas não sabemos o quanto ou como cada um desses fatores e outros interfere neste quesito mensurável que se usa tão rudemente por ai e que chamamos “qualidade”. Ou seja, seria necessário que minha brincadeira de cientista de laboratório fosse levada a sério como um trabalho de investigação, que utilizasse corretamente os instrumentos de pesquisa disponíveis para chegar a algum lugar. Mas, sinceramente, devo esclarecer que este meu trabalho era apenas para a satisfação de uma curiosidade pessoal. Deixo aos profissionais de educação, aos pedagogos e aos estudiosos da área as considerações mais sérias a este respeito. Mas eu não poderia de deixar de apresentar ao leitor minha anedótica aventura em busca de um laboratório sociológico imaginário. Quem sabe um dia, entre um e outro causo, consigamos tornar as ciências sociais aplicáveis ao mundo em que vivemos.